domingo, 26 de dezembro de 2010

24.12.2009

O amor está sempre por perto, nós que só o procuramos fora da gente!

Apesar de Você...*

CENA IV – A DESPEDIDA

(No Campus da Universidade).

GLÓRIA: O jornal da faculdade, eu li.
ERNESTO: Quem não leu?
GLÓRIA: Você está de parabéns!
ERNESTO: Como sabe que fui eu?
GLÓRIA: Quem não sabe?! (Pausa.) Vão descobrir suas atividades. Você usou o mimeógrafo sem permissão. Você pode ser preso!
ERNESTO: Estou sendo vigiado desde o almoço.
GLÓRIA: Quê?!
ERNESTO: Eu não vou parar!
GLÓRIA: Ernesto, até o Jango fugiu!
ERNESTO: Você não entende. Nunca entendeu!
GLÓRIA: Eu entendo! Eu sei que não passa de um grande sonho!
ERNESTO: Eu posso tentar?!
GLÓRIA: Para quê? Até os partidos políticos foram extintos, você viu! Já é o segundo ato institucional!
ERNESTO: Se a gente ficar calado, virão outros!
GLÓRIA: Virão de qualquer jeito, enquanto dezenas de pessoas desaparecem todos os dias… Já perdemos amigos… Falam em tortura…
ERNESTO: Entenda, não dá para voltar atrás!
GLÓRIA: Tudo em nome desse radicalismo!
ERNESTO: Você chama de radicalismo?
GLÓRIA: É tão difícil querer o que todo mundo quer? É tão simples… Você se forma, a gente casa…
ERNESTO: E vamos viver felizes para sempre!
GLÓRIA: E por que não?
ERNESTO: E como pode ser tão acomodada?
GLÓRIA: Por que pensa em todo mundo menos em mim?
ERNESTO: Glória, cai na real! Tem gente morrendo!
GLÓRIA: Eu não tenho culpa disso!
ERNESTO: Eu não posso!
GLÓRIA: Você não quer. Nunca quis!
ERNESTO: Não é verdade…
GLÓRIA: Eu sempre quis sozinha, Ernesto! Sempre os seus sonhos! E os meus?!
ERNESTO: Hoje à noite…
GLÓRIA: Eu não quero ouvir!
ERNESTO: Você sabe onde me encontrar!
GLÓRIA: Já disse que não quero ouvir!
ERNESTO: Já está tudo planejado e quando anoitecer…
GLÓRIA: Não!
ERNESTO: Essa manifestação vai dar certo, todo mundo sabe o que fazer! Conseguimos as armas…
GLÓRIA: Armas?! Contra o exército?!
ERNESTO: Glória, a gente tem que tentar!
GLÓRIA: Não, não tem! Você não vai voltar!
ERNESTO: Talvez… Eu quero te ver antes de ir.
GLÓRIA: Eu não vou!
ERNESTO: Glória…
GLÓRIA: Você vai perder sua família, a faculdade, sua liberdade, seus amigos, o emprego, a juventude, seu futuro… Você vai me perder!
ERNESTO: Eu vou! 

* 2003.  Escrito em parceria com A. Danyelli.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Uma mistura dos últimos dias com hoje*

No convívio entre as pessoas que se querem bem, infelizmente, também há dor, mas é porque não somos perfeitos e muitas vezes, apesar de todo desejo em ver o outro feliz, tomamos atitudes egoístas e impensadas... Saiba que antes de acertá-lo em cheio e te ver voltar pra casa com o coração espatifado, eu espatifei o meu também. A cada hora antes dessa, lasquei meu peito com dúvidas até lapidar essa certeza de que não quero mais.
A dimensão do que sentimos agora é incalculável, mas já entendi que mais cedo ou mais tarde se torna divisível; e tudo o que chorarmos hoje saberemos converter em sorrisos amanhã... Ou depois de amanhã... Os mais sensíveis se utilizam desses contratempos para aprender sobre relações, exercitando a paciência, o perdão e o diálogo; já os mais mesquinhos, juntam mágoas. A opção é individual e decisiva para o futuro desses seres. Acredito que estamos entre os primeiros e isso me tranquiliza e alimenta em meu pensamento a projeção de um caminho mais feliz, para ambos. Que assim seja. Amém.

* 18, 20 e 22.12.2010.

domingo, 19 de dezembro de 2010

18.09.2010

Tão um.
Tão nu.
Tão perdido.
Tão encolhido...
Em seu esconderijo.
Tão nada.
Tão sujo.
Tão isolado.
Tão corrompido...
Em suas decisões.
Tão seco.
Tão tolo.
Tão ardido.
Tão repartido...
Em sua solidão.

domingo, 12 de dezembro de 2010

25.05.2010

Tem palavra que fica muda diante do que a gente sente.

Selos - o retorno!

Agora são dois de uma só vez, minha gente... 


Os dois foram indicados pela Ana Agarriberri, lá do Molhe-se. Muito obrigado, Ana, pela lembrança, pelo carinho e pelo incentivo!!! Feliz!

Ambos os selos tem uma mesma regra que eu confesso não vou cumprir, porque minha vida social bloguiana não é o que pode se chamar de efervescente e os blogs que eu indicaria acabaram de receber de mim um outro selo; alguns desses blogs inclusive estão até paradinhos - o que me preocupa, porque são espaços que gosto muito de visitar. Bom, mas para não passar por negligente cairei na repetição e indicarei todos os blogs listados aí do lado direito, na lista de "Outras Reticências...", porque são descobertas valiosas para mim nesse mundo bloguiano e que se tornaram muito especiais da melhor forma possível: imperceptivelmente, organicamente. 

Ah existe uma outra regra - do segundo blog - que é partilhar 7 coisas sobre mim. Essa já é mais fácil. Então lá vai:
  1. Eu prefiro calor do que frio.
  2. Eu odeio atum.
  3. Quero aprender a cozinhar.
  4. Adoro ir à praia com os amigos.
  5. Sou canhoto.
  6. Sou muito curioso.
  7. Consigo digitar usando os 10 dedos.
Pronto. Acho que é isso... Abração para todo mundo!

...

domingo, 5 de dezembro de 2010

29.11.2010

Não quero mais me prender ao que é morno, cansei dessa vida ao banho-maria. Quero ferver em tudo o que faço e congelar apenas na hora de dormir eternamente. Quero ser verão os 365 dias do ano.



* Imagem de arquivo pessoal. Por J. Schutze (Oficina Despacho).


(No verão fico assim, destemido e ousado. Deve ser o calor. Que eu adoro inclusive, muito mais que o inverno, ao contrário de anos passados, quando a chuva me fazia feliz. Feliz nada. Quando chovia eu ficava melancólico, cabisbaixo... E por alguma razão eu acreditava que aquela era a única sensação que cabia a mim; como todo adolescente que sofre por amor como se amor matasse. E como se fosse privilégio particular sentir tal melancolia. Mas voltando ao verão, é nele que enlouqueço e me tomo de uma coragem e gosto pela vida tanto que até me desconheço. Falando assim me sinto um tanto ridículo, por que não é justamente no verão - ou seria na primavera? - que essa euforia domina os animais? Contudo vem o outono em seguida, para frear meus impulsos e suspender meus domingos de praia) - 14 e 15/06/2011.

Selo



Eu recebi esse Selo já faz um tempo, não esqueci de postá-lo, só havia planejado postar outros textos antes... E agora sim é a vez de agradecer por ele.

Quem me passou esse post com todo carinho foi a Cris do Meu Olhar Caleidoscopio e eu gostaria de presentear dois espaços bastante queridos. São eles:


Sendo assim, sintam-se abraçados!!
Um ótimo domingo e uma feliz semana para todos e todas!!

domingo, 28 de novembro de 2010

Versão 28.11.2010 de 22.11.2010

Escrevo e depois deixo de lado para certo dia mudar tudo, encontrando entre as frases tortas o que ficou escondido: eu e outras tantas reticências. É para isso que tenho escrito compulsivamente; na tola esperança de um dia me encontrar. Ou na melhor das hipóteses, para não me perder.

domingo, 21 de novembro de 2010

Versão 21.11.2010 de 04.10.2008


Quando o maior inimigo é nosso próprio pensamento fica difícil vencer a luta. Estabelecer um diálogo amigável comigo mesmo em busca de transformar a crença da minha mente em algo saudável para ambos, tem sido um desafio diário. Meus pensamentos têm me assustado, me deixado distraído, confuso e com a sensação de culpa. Eu sou o próprio vulto que me segue. Tenho desejado fechar os olhos, talvez precise disso, fechar os olhos e ter uma conversa séria comigo mesmo, deixando claro que somos um só e, que somos amigos e que queremos o bem um do outro. Meio imbecil dizer isso assim, talvez seja. Mas assombrar-se a si mesmo definitivamente não é nada bom. Alcancei um nível, e não tenho orgulho nenhum disso, de não sei o que, de fobia ao futuro, de fobia a um possível futuro trágico, fatal, doente. Estou assustado. Talvez neurótico. Atormentado com a violência da minha cidade e com as doenças incuráveis do mundo e com a possibilidade de morrer prematuramente por uma dessas vias. Qualquer tosse me faz crer ter chegado a minha hora. Qualquer sujeito estranho num momento de distração, me faz acreditar em violência gratuita. Hoje desejo fervorosamente saúde e paz. E um pensamento bom que me pertença e perdure por todo o dia.

* Imagem de arquivo pessoal. Desenho de P. Lucena.

domingo, 14 de novembro de 2010

Versão 14.11.2010 de 01.11.2010

Relampejava em sua cabeça há dias. Trânsito de ideias congestionado. Na vitrine só apatia e, na passarela, falsa indiferença. Fio desencapado faiscando impaciência. Queria o certo, mas não sabia bem chegar até lá. Queria saber se estava de fato errado. Queria conhecer de cor o caminho entre ambos. O futuro é imprescindível para não fazer do presente um caos completo. Mas a dor, a dúvida e o medo não podem sedimentar os tijolos dessa estrada, senão não se para nunca de tropeçar. Às vezes, como agora, é preciso parar por alguns instantes e repensar o caminho.



* Imagem de arquivo pessoal. Palmeira dos Índios/AL.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

07.11.2010

Qualquer hora dessas escrevo uma bobagem e te mando por carta registrada, com aviso de recebimento; só para saber, como antes, o que você anda lendo...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O Selo do Blog Amigo

   

AS REGRAS:

- Exibir a imagem do Selo no Blog - Ok
- Exibir o link do blog que o indicou - No textinho abaixo.
- Presentear 10, 15 ou 30 blogs e avisá-los - Agora o bicho pega, mas vamos lá:

Pensei em escrever ao lado de cada link o que mais gosto nos blogs abaixo, mas é que já são 00:57... De toda forma, é com carinho que os indico para receber esse selo, que eu recebi sem esperar e de forma tão afetuosa da Ana Agarriberri (Molhe-se). Como talvez alguns de vocês não sejam dados a esse tipo de intercâmbio bloguiano, fica a critério de cada um seguir as regrinhas do selo. De toda maneira, indico esses links porque de fato me interessa e me instiga demasiado o que há escrito em cada um deles. Vale muito a pena visitá-los, seja por entretenimento, reflexão, conhecimento, beleza, simplicidade, provocação e outras tantas razões...
  1. A Escrevedora
  2. Blondor Mental
  3. Calandra Intocável
  4. Compartilhando Nostalgia
  5. Conversa pra boi dormir
  6. De Mim Quase Nada
  7. Noventa e Dois
  8. Pura Loucura
  9. QUERIA UM DIA NO MUNDO
  10. Sacos Plásticos
No mais, uma feliz semana para todos e todas!
Forte abraço!
:o)

domingo, 7 de novembro de 2010

02.10.2010

É tudo muito urgente
A vida urge mim
A morte corre
Tudo muda rapidamente
Tudo muda a gente
A gente morre

Apesar de Você*

CENA III – O APARTAMENTO

(No apartamento de um amigo em comum.).

GLÓRIA: Gostei daqui.
ERNESTO: Estou precisando muito desses livros!
GLÓRIA: Ele disse que estava naquela estante.
ERNESTO: Ah, sim! O Paulinho foi muito gentil em emprestar o apartamento.
GLÓRIA: É mesmo! Ele tem um monte de disco legal… (Ela se dirige aos discos e ele à estante de livros. Silêncio.). A turma marcou de se encontrar amanhã, na casa da Helô. Não quer ir?
ERNESTO: Eu?!
GLÓRIA: Vai passar o festival de música, pela TV. Sei que você gosta!
ERNESTO: Esses encontros sempre acabam com disco de Roberto Carlos na vitrola…
GLÓRIA: Prometo que te faço companhia!
ERNESTO: Está bom! Está bom… Eu vou! São ossos do ofício!
GLÓRIA: A gente vai conversar…  (Ela põe um disco pra tocar na vitrola).
ERNESTO: O difícil vai ser encontrar o assunto.
GLÓRIA: Eu te ajudo a procurar! (Ela o convida para dançar; eles dançam. Ele a aperta durante a dança). O tempo está passando tão rápido… Olha só para gente… 3 meses. (Ela se solta dos braços dele e pára a música). E o Jango?
ERNESTO: Que é que tem?
GLÓRIA: O que você achou do comício do dia 13?
ERNESTO: Eu acho que as reformas de base são uma necessidade para o desenvolvimento do país.
GLÓRIA: A reforma agrária? Você acha mesmo que vai acontecer?
ERNESTO: Estamos vivendo um clima de tanta tensão, que a essas alturas a minha maior preocupação é o golpe militar!
GLÓRIA: Golpe militar?! E o que você me diz do comunismo?
ERNESTO: Glória, se você que é universitária, se deixa levar por essa propaganda enganosa, imagine o resto da população! Você não vê que isso é estratégia para convencer que o regime militar é o melhor?
GLÓRIA: Não sei, não! Só sei que o país precisa mesmo é de ordem! (Pausa. Dessa vez ele põe a música).
ERNESTO: Sabe jogar xadrez?
GLÓRIA: Que pergunta!
ERNESTO: Sabe ou não sabe?
GLÓRIA: Sei sim! Mas não é todo mundo que se interessa!
ERNESTO: Você tem um parceiro, agora! (Beijam-se.).

* 2003.  Escrito em parceria com A. Danyelli.

domingo, 31 de outubro de 2010

Sem data

Eu tento fazer o que falo. Às vezes fica só de boca, às vezes faço sem pensar. Mas nunca falta vontade de acertar. Embora às vezes eu erre feio, não sinto dor ao pedir desculpas, um pouco de vergonha talvez, orgulho quem sabe, mas eu peço. E se quiser me dizer algo importante, olha aqui ó...


* Imagem de arquivo pessoal. Foto de Horrorosa.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

27.07.2010

Parei de dormir para pensar em você. Mesmo sabendo que precisava descansar, parei de dormir para pensar em você. Abri os olhos ainda miúdos do sono abandonado e te chamei para bem pertinho dos meus pensamentos. Você veio como uma tempestade brilhante de raios. Tantas dúvidas e inseguranças constantemente relampejadas sobre minha insônia. Por que você? Por que eu? O que você quer de fato? O que eu quero contigo? Como agir de agora em diante? Qual o próximo passo?... Preciso te falar enquanto o sono não vem que me acostumei sozinho e, agora que você apareceu, me deu medo de fazer tudo errado, de ver problema onde não há, de dar ouvidos demais ao que os outros poderão dizer, de não aproveitar... Um medo de acreditar nas minhas próprias palavras, de que o legal é justamente o que nos torna diferentes, distantes um do outro; porque nessa distância, temos um caminho inteiro só nosso para enfeitarmos. Me diz alguma coisa antes que o sono volte com toda essa minha insegurança transformada em pesadelos. Me liga dizendo que também não consegue dormir porque eu não paro de pensar em você. Me liga e me acalma, me manda dormir com os anjos para que amanhã, digo hoje, eu acorde desejando te ver de novo sem medo de sonhar acordado...

domingo, 24 de outubro de 2010

11.09.2010

Eu por minha vez, já faz tempo que não me pergunto sobre o futuro. Limito-me ao exercício nada fácil de experimentar com intensidade o presente que me pertence, refletindo sobre minhas escolhas, respeitando minha intuição sempre na tentativa de acertar e comungando as dores e os sabores dos encontros que se dão nesses caminhos de meu Deus. É só assim que consigo me pegar com saudade do que o presente não me deixou levar pro futuro! Que é hoje!

domingo, 17 de outubro de 2010

26.06.2010*

Olho no olho
Olho na boca
Cabeça flutuando
Cabelo em

Na sala 
No jardim

Suor descendo
pelo pescoço,
entre as sobrancelhas
pelo nariz.

Tem uma    esperança        na sala.

Vou fechar os olhos pra te ver ...................................................... dançar.




















* Processo da performance "Obra sem Título", com L. Freire. 
** Imagem de M. Gamarra.

domingo, 10 de outubro de 2010

07.10.2010

Não ando... Corro. Tenho corrido numa urgência que quase sempre não é necessariamente minha, mas com a qual compactuo e, disso não me orgulho tanto assim... Nisso me distancio, me calo e sigo por tantos lugares que se tentar descrevê-los vou misturar todas as cores e não desenharei nenhum deles como realmente são... Um dia não é conta certa, eu sei... Mas um dia eu paro.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Exercício sobre um lugar comum chamado Amor*

Porque no fim das contas o que une as pessoas é o amor - é clichê, mas é a mais pura verdade. E o amor que tanto buscamos não está nos outros, está em nós mesmos. Quando sabemos quem somos; quando aproveitamos nossas dúvidas, fraquezas e fracassos para aprender sobre nós e sobre os outros; quando a dor é compreendida como um estágio e não como algo definitivo; quando aprendemos que olhar nos olhos pode valer muito mais do que qualquer palavra bonita; quando descobrimos que a solidão não é condenação e sim contato consigo mesmo; quando o presente é mais interessante do que um passado frustrante e um futuro sombrio, aí sim estamos aptos a amar! Aí sim, atrairemos quem tem amor pra dar, amor de quem quer nosso bem simplesmente, mesmo que não fique pra sempre. Portanto, não se deixe enganar, não se lamente nem tenha pena de si mesmo por não se encaixar no que vendem ou exigem lá fora. É balela, é furada! Não posso sentir sua dor por você, pelas limitações que você tem, nem dizer que a sua dor é maior que a minha e vice-versa, pois cada um sabe onde lhe dói, mas acredito que ninguém sofre nada que não possa aguentar! Portanto, seja firme, seja confiante, seja alegre, seja amor e nunca será solidão! 

* 19.01.2010.

domingo, 3 de outubro de 2010

02.02.2003

A vontade é de só olhar bem nos olhos
e decidir sem falar:
ir embora ou abraçar.


(Depois de tanto erro e confusão, fica difícil dar conta dos sentimentos por meio da linguagem. É hora de escutar, de silenciar e usar os sentidos para perceber o que de fato está acontecendo, o que se deseja por trás de tanta inconstância) - 14.10.2012.

26.06.2010

Feche os olhos que eu vou dançar pra você...

domingo, 26 de setembro de 2010

03.07.2010

Era para ser simples. Nós cruzaríamos nossos olhares e um dos dois, não importava quem, iria dar um "olá" ou algo do tipo e aí tudo caminharia para o que ambos desejavam já fazia tempo... Mas eu falhei, eu topei no caminho, eu desviei o olhar, eu olhei pra outra pessoa, eu não esperei ou não soube esperar... O fato é que nem sei o que eu fiz com a chance que desperdicei. E como explicar, como dizer que fui pego de surpresa, como justificar que foi difícil?... Não há como fazer isso. Não agora. Fica pra próxima então...

Versão 30.01.2010 de 01.02.2006

Todo cuidado é pouco
quando te deixo louco
por mim
E só dizes sim...
Me vês de longe
E já sabe o que
quero
Dá o que peço
Sem pedir troco
Depois de satisfeito
nem vejo a hora,
te agradeço
te digo um verso.
e vou embora.

sábado, 25 de setembro de 2010

27.06.2008

Contudo, ao contrário da dança, na vida nem sempre podemos realizar os movimentos que queremos ou que nossos corpos pedem. Às vezes é preciso negar o movimento, estabelecer pausas; às vezes dançar no silêncio ou fora do ritmo.

Apesar de Você...*

CENA II – O SORVETE

(Numa sorveteria, Ernesto espera por Glória. Ela chega por trás dele).

GLÓRIA: Demorei? (Senta-se).
ERNESTO: Não, não… Bem na hora! Sorvete de…
GLÓRIA: Mas já? Não vai nem conversar um pouquinho?
ERNESTO: Desculpa!
GLÓRIA: Bobagem… Vamos tomar sorvete!
ERNESTO: E conversar! (Riem. Pequena pausa). Você tem cara de quem gosta de…
GLÓRIA: Adivinha!
ERNESTO: Pitanga!
GLÓRIA: Como é que você sabe?
ERNESTO: Desconfiei. (Servem-se de sorvete).
GLÓRIA: Nunca tinha te visto com o pessoal.
ERNESTO: É… Ontem foi uma exceção!
GLÓRIA: Jeito louco que a gente se conheceu.
ERNESTO: Bendita exceção! (Pausa).
GLÓRIA: Nem acredito que estou aqui.
ERNESTO: Nem eu.
GLÓRIA: Pensou que eu não viria?
ERNESTO: Na verdade, sim.
GLÓRIA: Por quê?
ERNESTO: Não achei que a mocinha tomaria sorvete com o Incrível Hulk!
GLÓRIA: Contanto que você não fique verde… (Riem). Como foi que você se meteu nisso?
ERNESTO: Nisso, o quê?
GLÓRIA: Esse negócio de movimento estudantil, panfletagem, artigos de jornais do diretório…
ERNESTO: Ora, Glória… Eu não me meti em movimento algum! Eu sou estudante; não tem como a gente se meter num lugar no qual a gente já faz parte… A diferença é…
GLÓRIA: A diferença é que vocês adoram fazer barulho!
ERNESTO: A diferença é que a gente participa. (Silêncio).
GLÓRIA: Está bem… Mas da última vez que teve reunião, eu soube que saiu até o nome do presidente, foi a maior discussão e um monte de defesa comunista.
ERNESTO: Defesa comunista? Pelo amor de Deus! É tudo muito bem organizado. Cada vez mais estudantes participam do movimento.
GLÓRIA: Você não tem medo que tanta bagunça resulte numa guerra?
ERNESTO: E você acha que está acontecendo o quê, por baixo dos panos? (Silêncio).
GLÓRIA: Realmente você é muito diferente do que eu imaginei!
ERNESTO: Mas que ideia é essa que você fazia de mim?
GLÓRIA: Você sabe…
ERNESTO: Sei, é?
GLÓRIA: Todo mundo fala.
ERNESTO: É, eu sei! (Pequena pausa).
GLÓRIA: Por que você é assim?
ERNESTO: Mas assim como?!
GLÓRIA: Assim!
ERNESTO: Por que sou.
GLÓRIA: É por que é?
ERNESTO: É!
GLÓRIA: Então está bom. (Pausa).
ERNESTO: Você deveria ir às nossas reuniões!
GLÓRIA: Para quê?!
ERNESTO: Ora, para entender melhor o processo. Ia ver que a causa é justa, e que somos muito mais que um bando de estudantes briguentos!
GLÓRIA: Você é tão…
ERNESTO: Diferente de você?
GLÓRIA: De todo mundo que eu conheço!
ERNESTO: Você não iria às nossas reuniões, não é?
GLÓRIA: Encontraria você lá? (Ele sorri). Então, eu vou!
ERNESTO: Jura?! (Ela confirma com a cabeça). Você vai ver, somos do bem!
GLÓRIA: Já percebi!
ERNESTO: Queremos paz!
GLÓRIA: Você é um guerreiro!
ERNESTO: Sabe qual seria o meu melhor troféu hoje?
GLÓRIA: Não.
ERNESTO: Glória!

* 2003.  Escrito em parceria com A. Danyelli.

domingo, 19 de setembro de 2010

12.12.2009

De tanto que chorei, perdi o sal... Agora sou doce!

18.10.2003




domingo, 12 de setembro de 2010

Versão 12.09.2010 de 17.08.2000

Me perdi na minha própria casa.
Mudaram os móveis.
Devastaram meu jardim.
Reservaram-me apenas o quarto.
Eu disse que não.
Eles disseram que sim.
Abriram a porta pro gato,
Brincar com o cão raivoso.
E foram dormir.

domingo, 5 de setembro de 2010

13.03.2009

Dorme anjo misterioso,
que a próxima manhã
é ainda mais indecifrável.
Dorme que para cada sofrimento interminável
existe uma breve alegria inesquecível.


(Às vezes nossas carências e ilusões nos conduzem por caminhos tão obviamente desastrosos e infelizes, mas cegos seguimos fantasiando flores onde há apenas pedras. É preciso tropeçar nas mesmas rosas para se dar conta que a estrada é circular e a única saída é construir pontes) - 26.09.2012

domingo, 29 de agosto de 2010

03.10.2009

E essas coisas que dizemos um para o outro em tom de brincadeira, é sério?
E o que contamos um para o outro sobre o que fizemos, é tudo?
E o que revelamos um para o outro sobre o que queremos, é mesmo?
E o que esperamos um do outro, é dado?
E o que sentimos um pelo outro, é isso?

19.01.2010

Falando com desconhecidos
Escrevendo para ninguém
Saindo com amigos
Rezando por todos
Dormindo sozinho
Sonhando contigo.

domingo, 22 de agosto de 2010

Versão 22.08.2010 de 05.01.2004

Daí me peguei de frente para o espelho, cuspindo a pasta na pia, me preparando para deitar, pois no dia seguinte levantaria cedo. Ergo a cabeça e ainda com os lábios molhados e o hálito recém-mentolado, dou de cara comigo barbado. Quantas vezes já fiz isso na vida, isso de cuspir pra deitar? - A barba apesar de rala denunciava o tempo passado. - Detesto pêlos na cara!, pensei. E como quem deixa os pensamentos fluírem feito as águas de uma cachoeira, ou mesmo da pia onde acabara de cuspir; assim como essas águas correm, minhas lembranças correram dali para trás e de trás para frente, na mesma velocidade inalcançável que o tempo me levou do passado ao presente. Me ver de cara barbada me deu saudade de tanta coisa que fui dormir triste.

21.01.2010

Entre aspas e saia ponto final...

domingo, 15 de agosto de 2010

Versão 03.02.2010 de 18.12.2003

Dentro de mim você perdeu espaço.
Mudou-se de quarto.
Cruzou o corredor.
Atravessou a sala.
Passou da porta.
Saiu de mim.
Vive na rua.
Dorme lá fora.



* Imagem de arquivo pessoal.

domingo, 8 de agosto de 2010

Sem data*

Macaquinho, macaquinho, macaquinho!
No cangote do meu pai.
Por que parou?
Cresci.

* Algum dia entre 2005 e 2006.


(Eu me lembro de nós dois correndo pela sala, rindo muito, num desses momentos de descontração repentina. Crescer não foi exatamente o problema. Mas sim, não saber como brincar mais contigo) - 25/06/2011.

Conselho Dadaísta à Imagem*


Se não está revelado,
Quem disse transparência, admite sua culpa.
De qualquer ângulo os detalhes são surpreendentes.
Então a auto-punição.
Veja como você pode ajudar. Não mude, 
Pois precisa de auto-afirmação. Use a diferença.
Ao superar as barreiras,
Um novo ponto de vista ao virar.


* 02.09.2000.
** Imagem de arquivo pessoal.

domingo, 1 de agosto de 2010

18.05.2003

Voltou para buscar a saudade de deixou?
Pode entrar. Sem problema.
Vai no quarto.
Ela está lá, na última gaveta do armário.
No fundo da caixa de sapatos.
Entre as cartas e os retratos.
Vai, pega tudo. Leva tudo.
Agora sai. Por favor,
Me dá licença.
Me deixa só com o que sobrou:
Indiferença.

Apesar de Você...*

CENA I – O ENCONTRO

(A cena passa-se numa festa. Glória dança discretamente. Ernesto está parado olhando vez ou outra para os lados. Ernesto avista Glória; ela o vê. Ele se aproxima hesitante).

ERNESTO: Oi! (Ela ri) Está sozinha?
GLÓRIA: Acho que não, isso é uma festa! (Ele não sabe o que responder. Ela muda de assunto) É amigo da Helô?
ERNESTO: Quem?
GLÓRIA: A dona da festa.
ERNESTO: Na verdade, sou amigo do primo da amiga da… Helô!
GLÓRIA: É penetra! (Eles riem).
ERNESTO: Você é bem legal!
GLÓRIA: Você também. (Pequena pausa).
ERNESTO/GLÓRIA: Quer cerveja?/Quer dançar?
ERNESTO/GLÓRIA: Não! (Riem. Pausa).
ERNESTO: Na verdade vim por insistência de um amigo.
GLÓRIA: Não gosta dessas festas?
ERNESTO: Não aguento esse “iê, iê, iê”! Tem uma turma de Arquitetura que são uns alienados!
GLÓRIA: Eu faço Arquitetura.
ERNESTO: Não tenho dúvida nenhuma. Você deve fazer tudo perfeito!
GLÓRIA: Engraçadinho! Bom… Acho que não fomos apresentados; sou Glória.
ERNESTO: Ernesto!
GLÓRIA: Ernesto?! Já ouvi falar de você.
ERNESTO: Ouviu? O quê?
GLÓRIA: Digamos que você não é como eu, não faz tudo perfeito.
ERNESTO: Ah! Mas faço Direito. (Riem).
GLÓRIA: Sempre tive curiosidade de saber quem era você.
ERNESTO: E aí?
GLÓRIA: Na verdade, não é bem como eu imaginava… (Ele a olha fixamente). Você é mais perfumado e menos barbado!
ERNESTO: Só hoje! Na segunda-feira eu volto a ser o Incrível Hulk!
GLÓRIA: É que…
ERNESTO: Eu sei, eu sei…
GLÓRIA: Sabe?
ERNESTO: Eu entendo tudo.
GLÓRIA: Entende?
ERNESTO: Claro!
GLÓRIA: O quê?
ERNESTO: Pra vocês o mundo está bom como está; festas, reuniõezinhas para cantar Roberto…
GLÓRIA: E o que há de errado?
ERNESTO: Nada. Só que o Incrível Hulk não gosta de nada que desbote o verde.
GLÓRIA: Da pele?
ERNESTO: Do Brasil!
GLÓRIA: Já haviam me dito como defende suas ideias, mas nunca tive a oportunidade… 
ERNESTO: As ideias não são minhas! (Silêncio. Ela o observa). Por que você está me olhando assim?
GLÓRIA: Não. Nada, não!
ERNESTO: Falei algo de errado?
GLÓRIA: Não, não!
ERNESTO: A gente nunca tinha se falado… E agora eu fico falando sem parar!
GLÓRIA: Não se preocupe!
ERNESTO: É que…
GLÓRIA: Eu sei, eu sei.
ERNESTO: Sabe?
GLÓRIA: Eu entendo tudo.
ERNESTO: Entende?!
GLÓRIA: Claro!
ERNESTO: O quê?
GLÓRIA: Você é tão…
ERNESTO: Então sai comigo, amanhã? (Pausa).
GLÓRIA: Eh…
ERNESTO: Amanhã, às 16h, na Lanchonete do Fulaninho.
GLÓRIA: Está bem, eu vou!

* 2003.  Escrito em parceria com A. Danyelli.

domingo, 25 de julho de 2010

Versão 24.07.2010 de 28.06.2008

Os escorpiões continuam saindo pelos ralos e pia do banheiro como que flores brotando num jardim de terra fértil. 

Já tentei sandálias, pá, álcool, água sanitária, água fervendo, e eles, sempre pela madrugada e justo quando preciso de um banho ou lavar o rosto, aparecem para atormentar meu juízo já cansado do dia. Passo o resto da noite com medo de que também estejam em meus lençóis, prontos para se vingar, para cobrar o que fiz aos seus, que não tiveram culpa de se perderem e virem parar aqui. 

Existe algo de fascinante no escorpião. Algo de bravura, de ousadia, de indiferença... De certeza de si. Algo nesses termos que me leva o resto de segurança que ainda tento sustentar nesses dias tão sem cor e frágeis que tenho passado, com as vontades tão incertas...

A persistência dos escorpiões que matei me faz tremer. Eles que estavam lá, no seu canto - sem culpa de serem escorpiões desbravadores de canos d'água - tão de bem consigo, morreram lutando, tentando acertar o que fosse com suas caudas peçonhentas, pois acreditavam lutar pelo que lhes era de direito, afinal caminharam muito até chegar aqui, no banheiro desse apartamento. 

Minha vontade é fazer as malas e deixar todos os cômodos para esses pobres escorpiões, mais obstinados que o mais obstinado dos capricornianos. E partir ralo a fora, ralo a dentro em busca de meu próprio lugar.

Série "Macro" - 4/4


Um presente carinhoso do Dia de São Valentin.*

* Fevereiro de 2005.
** Imagem de arquivo pessoal.

domingo, 18 de julho de 2010

Trecho revisado de 13.08.2003

Não lembro muito bem do caminho de volta até sua casa. Não lembro o que foi dito, se foi dito alguma coisa. Não lembro. Mas não esqueço que antes de você descer, você me olhou e percebeu que se meus olhos tivessem mãos, eles te agarrariam, não te deixariam sair, te levariam comigo; e você disse: não me olhe com essa cara, por favor - como quem diz que as coisas vão melhorar, que eu não deveria ficar triste.

Também não lembro como cheguei em casa. Sei apenas que dormi com a certeza de que acordaria infeliz na manhã seguinte, porque saímos para conversar sobre um amor que quase deu certo, sobre uma amizade cuja cumplicidade encontrava-se ameaçada, talvez já nem houvesse mais. Porque saímos para acertar as diferenças, os desencontros, os malentendidos, para eliminar o desconforto de cada encontro desde então... E acabamos transando enlouquecidos no banco traseiro do meu carro sob o breu de um coqueiral. Sem resolver nada disso e, pior, agindo como se aquela transa fosse justamente o que faltava para as coisas acabarem bem. Como a despedida com chave de ouro para o que já não brilhava mais.

E acordei. Infeliz. Insatisfeito...

Série "Macro" - 3/4



Às vezes dou atenção demais ao que não merece, mas de repente me acho e o tempo volta a ser meu aliado.*

* Ano 2009. Data incerta.
** Imagem de arquivo pessoal.

domingo, 11 de julho de 2010

Debande

Não, não vou dar o braço a torcer.
Não, não vou mais torcer por você.
Nem vou falar com você.
Não quero mais te ver.
Vá pra longe, bem longe.
E não me diga onde.
Porque eu não vou te ver.
Não vou mais buscar você.
Saia daqui.
Debande.
Siga adiante.
E não me olhe ao sair.

* 01.02.2001

Série "Macro" - 2/4


Se falta energia brinco de teatro de sombras.*

* Entre setembro e outubro de 2008.
** Imagem de arquivo pessoal. 

domingo, 4 de julho de 2010

23.04.2010

Dancei tristeza hoje à noite.
Uma saudade do que nunca tive de fato.
Uma ausência que me persegue desde jovem.
Hoje dancei como louco em busca de uma explicação
para tanto gesto equivocado,
tanto movimento descoordenado.
Hoje dancei solidão.

Série "Macro" - 1/4


Esse caranguejo apareceu na casa antiga.
Fugindo da água doce que já era poluída.
Cansado e assustado, não aceitou comida ou bebida.
Tentei reanimar. Espumou e morreu!*

* 04.07.2010.
** Imagem de arquivo pessoal. 

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Versão 12.05.2010 de 16.10.2000

Precisei de você hoje. É, de repente. Do nada pensei preciso de você hoje!

Quase entro em pânico! Por pouco acreditei na necessidade que senti de ti. Quase toquei essa sensação estranha. Falta esquisita. Sem lógica.

Voltei a mim e imediatamente procurei nos olhos das pessoas ao meu redor algum indício que as tivesse feito perceber a minha necessidade repentina de ti. Para minha alegria ninguém percebera.

Então saí... Despercebidamente estranho.


(É uma luta danada essa a de desgostar de alguém. Foi assim esse dia; já fazia tempo que tudo acabara, mas como uma onda de calor ou de frio, uma queda de pressão ou calafrio de espírito nos rondando, senti falta do que não tinha mais, do amor então quebrado, ferido. Sabe ferida cicatrizando? Se deixar quieta tudo parece estar no lugar, mas basta esbarrar, encostar acidentalmente em algo que a dor do corte levanta do sono irritado por ter sido acordado. Foi bem assim. Nem lembro o que me despertou a lembrança. Sei apenas que tive de juntar força para suportar a falta e ninar a saudade até fazê-la dormir novamente, sem que ninguém percebesse) - 21/06/2011.

domingo, 27 de junho de 2010

+ 18.06.2010



* Imagem gentilmente cedida por Gabriel Pinto (http://algumpoema.blogspot.com/).

Apesar de Você…*

CENA VI – O TÁXI **

(Glória acena para um táxi. O táxi pára. Glória entra no táxi. O táxi segue viagem.).

GLÓRIA: Bairro Tal, por favor!
ERNESTO: Pois não! (Olha-a pelo retrovisor.). A senhora…
GLÓRIA: Hein?!
ERNESTO: Nada não.
GLÓRIA: Como assim?
ERNESTO: Uma balinha?
GLÓRIA (Após uma rápida hesitação.): Aceito.
ERNESTO: É das boas!
GLÓRIA: Quem?
ERNESTO: A balinha!
GLÓRIA: Ãham! (Silêncio.). Eh…
ERNESTO: Como?
GLÓRIA: Dá para cortar caminho?
ERNESTO: Ah, claro!
GLÓRIA (Indicando.): Por aqui.
ERNESTO: Essa rua…
GLÓRIA: Mudou, não é?
ERNESTO: Desanimou.
GLÓRIA: A cor… O verde…
ERNESTO: Desbotou.
GLÓRIA: É, um pouco.
ERNESTO: O tempo…
GLÓRIA: Voa, né?
ERNESTO: As festas…
GLÓRIA: Lembra?
ERNESTO: De penetra!
GLÓRIA: Você…
ERNESTO: Sim?
GLÓRIA: Hulk?
ERNESTO: Quê?!
GLÓRIA: Desculpa!
ERNESTO: Bobagem!
GLÓRIA: O senhor…
ERNESTO: Hein?!
GLÓRIA: Ernesto?
ERNESTO: Eu.
GLÓRIA: Sou Glória! (Pequena pausa.).
ERNESTO: Glória?!
GLÓRIA: Glória!
ERNESTO: Mentira, Glória!
GLÓRIA: Verdade, Ernesto!
ERNESTO: Glória.
GLÓRIA: Ernesto.
ERNESTO: Glória!
GLÓRIA: Eu…
ERNESTO/GLÓRIA: E você. (Riem.).
ERNESTO: Voltei. E você?
GLÓRIA: Indo.
ERNESTO: Muito bonita!
GLÓRIA (Ela sorri. Pausa.): E lá?
ERNESTO: Difícil.
GLÓRIA: Agüentou?
ERNESTO: Normal. Apesar de você…
GLÓRIA: Coincidência!…
ERNESTO: Você acha?
GLÓRIA: Acho!
ERNESTO: Eu não sei.
GLÓRIA: Claro, você não ficou!
ERNESTO: Me deixou triste!
GLÓRIA: Eu?
ERNESTO: Sim.
GLÓRIA: Por quê?
ERNESTO: Não foi nem…
GLÓRIA: Naquele dia…
ERNESTO: Nossa despedida!
GLÓRIA: Ia chorar.
ERNESTO: Por me ver?
GLÓRIA: Queria te segurar!
ERNESTO: Era só o que você queria…
GLÓRIA: Eu te amava.
ERNESTO: Mas não foi!
GLÓRIA: E você? Também não ficou…
ERNESTO: Eu fui… Te amando…
GLÓRIA: Eu fiquei te amando… Em xeque.
ERNESTO: Não era um jogo de xadrez.
GLÓRIA: Posso tentar…
ERNESTO: Nem me procurou.
GLÓRIA: Você também.
ERNESTO: É. Nós dois. E o pessoal?
GLÓRIA: Por aí.
ERNESTO: E você?
GLÓRIA: O que é que tem?
ERNESTO: Bem?
GLÓRIA: Bem. Ainda joga xadrez?
ERNESTO: Está quase chegando.
GLÓRIA: Quero um parceiro.
ERNESTO: Então vamos…
GLÓRIA: Casei… Com o Paulinho.
ERNESTO: Glória, com o Paulinho?!
GLÓRIA: Foi. (Silêncio.).
ERNESTO: É aqui? (Ela confirma com a cabeça. Ele pára o carro.).
GLÓRIA: Ainda preciso de…
ERNESTO: Você casou.
GLÓRIA: Um parceiro para jogar xadrez. (Olham-se. Ela pega sua carteira. Ele estende a mão, indicando que não precisa. Ela guarda a carteira e desce do carro. Ele também desce do táxi.). Esse táxi…
ERNESTO: É meu.
GLÓRIA: Então, talvez…
ERNESTO: É, quem sabe?
GLÓRIA: E você?
ERNESTO: O que é que tem?
GLÓRIA: Bem?
ERNESTO: Bem.
GLÓRIA: Então tá… Tchau! (Ele acena com a cabeça e parte.).


* 2003.  Escrito em parceria com A. Danyelli.
** Cena inspirada em texto de Alcione Araújo (“A Raiz”, em Cinco Movimentos a duas Vozes).

quarta-feira, 23 de junho de 2010

21.12.2009

Deve ser sono. Deve ser só sono.
Devo estar só. Com sono.
Não devo nada.
Vou dormir.
(...)
Só.

domingo, 20 de junho de 2010

01.03.2010

Perdendo o medo, ganhando o tempo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Versão 09.06.2010 de 26.10.2008



De repente uma claridade instaurou-se sobre minhas ideias.
E vi o que estava escondido.
Vi o que era difícil, doído.
De repente cansei de resistir e tudo se mostrou mais nítido.
E vi o que menti pra mim.
Vi que retomei o caminho.
De repente entendi das coisas com serenidade.
E vi o que já percorri.
Vi quem levo comigo.

* Imagem de arquivo pessoal.

domingo, 13 de junho de 2010

12.01.2010

Calma que amor chega já.
Ele me disse, mandou avisar.
Não adianta chamar!
Ele vem quando tiver vontade,
quando a gente não estiver esperando.
Calma que tem amor pra todo mundo.
Tem amor de todo jeito.
Tem amor pra cada um.
Calma, mas nada de se acomodar.
Tem que fazer sua parte.
Tem que carregar um coração leve,
sem mágoa nem medos,
sem culpa nem desconfiança.
E vamos rindo que chorando não tem graça
Ele está à espreita, não vai demorar!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Versão 09.06.2010 de 30.11.2009

Era tarde demais para sentir saudade.
Já era tarde para escrever o que estava engasgado.
Era muito tarde para saber como estava.
Era tarde para pedir atenção ou reclamar desculpas.
Já era tarde para saber o que queria.
Já era tarde para dizer o que pensava.
Era muito tarde e então...
Ele foi dormir.

domingo, 6 de junho de 2010

De porta aberta e casa vazia*

O azul no branco, não lia.
Escrevia mas não lia.
As palavras, mal escolhia.
Pratos na pia, não via.
A porta aberta, a casa vazia.
Na lembrança, nenhuma alegria.
Dobrava o branco com azul.
Tremia.
Segurando a mala,
o braço doía.
Na pressa, corria.
Da porta olhava a mesa.
Da carta, já se arrependia.
Na porta, chorava e sorria.
Se ia. De lá corria.
Fugia...

* Versão 06-07.06.2010 de 01.05.2004.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

(Con)versão 02.06.2010 de 21.11.1999

Não há demora quando se espera num lugar desses...

Eu ainda sou a parte boa da história?



- Não, eh... eu só liguei pra dizer que te amo.
- (chorando)
Eu também te amo.
- Eu merecia um soco!
-
Você não sabe o quanto.
- Você não sabe o
quanto. Você merecia um abraço!



- Oi. Liguei pra constar.


- Diga, vá! Diga! Diga, !

Somos dois egoístas.
Eu queria um lugar só meu.
É difícil não se envolver.

Agora sou eu quem não vai desistir de você. E não vou!
Só recebe ajuda quem pede.



- Qualquer coisa, ligue, viu?!
-
Você também.


Hoje, sou apenas mais um, no lugar de sempre, conversando com as mesmas pessoas...


Nós sempre sabemos o que está acontecendo. 
O que está pra acontecer.
Mas não dizemos.
Não fazemos nada.
Ou tudo ao contrário.
...

domingo, 30 de maio de 2010

27.11.2009

Buscando o que melhor dizer, encontrei o silêncio!

Algum dia em 2007

Às vezes, como agora, sinto uma vontade imensa de escrever algo que defina exatamente o que estou sentindo, como estou me sentindo... Mas nunca termino a frase!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

P.S.S.:

Se é para mudar comigo, que seja para um lugar bonito. Que seja para melhor. Que sejamos sempre amigos.

* 15.11.2009.

domingo, 23 de maio de 2010

Trecho de 28.12.2009

... Queria acalmar o olhar. Olhar para um ponto apenas. Não como quem encontrou o que procurava, mas como quem sabe que o que procura não está fora, está em si.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

06.04.2009

Vou complicar tudo, vou dificultar às vezes, como hoje, como agora, mas saiba, é tentando acertar, do fundo do meu coração!

Versão 19.12.2009 de 27.07.2008

Falo de uma indiferença. Como se não fosse comigo, nem tivesse acontecido. Como um sonho que após desperto, perde a sensação de realidade. Como um sonho esquecido, pouco nítido. Falo de uma certeza de não ter feito nada de errado. Falo do que por nunca ter sido meu, não me dói não ter mais. Falo de um desejo que deixou de ser meu tão sutilmente, que me vi assim: indiferente. Portanto, não falo mais.

domingo, 16 de maio de 2010

P. T. D. - 10*

... Ele já se permitira lembrar com bom humor do que ele chamava de pequenas tragédias domésticas.

* 05.04.2010. Fim da série.

P. T. D. - 9*

Feira do mês:
  1. Nissim miojo
  2. Leite condensado
  3. Suco instantâneo
  4. Pão
  5. Queijo
  6. Leite
  7. Ovos
  8. Pilhas para mp3
  9. Veneno para ratos (onde aquele gato se meteu, meu Deus?!)
  10. Veneno para cupins
  11. Veneno para pernilongos gigantes
  12. Veneno para caranguejos
  13. Veneno para aranhas
  14. Veneno para vizinhos barulhentos
  15. Máscaras de oxigênio.
* 15.05.2010.

Versão 16.05.2010 de 27.06.2006

Não minta pra mim
não diga que sim sendo não
não negue o difícil
nem prometa o impossível.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

07.04.2003

Profetizar sobre o triste futuro dos seus romances não era nada. Acertar sempre é que era o pior.


(Incrível como o complexo de patinho feio nos dá poderes para o mal, até quando tudo vai bem) - 07.08.2011.

06.05.2003

 
Entre os amigos, gostava de subitamente ficar em silêncio após conversar bastante. Nessas horas punha o olhar fixo em algum ponto à certa distância, deixando o pensamento quase parado como uma canoa presa à beira de um rio, dançando ao ritmo das espaçadas e lentas ondas. Só saía dali, do ponto, da canoa, do rio, quando alguém o percebia inerte e perguntava o que acontecera. Ao que ele respondia, sereno: - Nada!

* Imagem de arquivo pessoal.

domingo, 9 de maio de 2010

P. T. D. - 8*

Última temporada do Maior Show Aquático da Terra:
S.A.N.I.T.Á.R.I.O 
uma descarga em três atos.
I - Enchente. II - Tsunami. III - Marola

Venha você também se molhar de emoção!!!


* 08.05.2010.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

P. T. D. - 7*

- O que foi, meu filho?
- O gatinho, mãe, ele fugiu!
- Ele volta...
- Já faz mais de 15 dias...
- Você dava comida a ele?
- Da melhor.
- Ele tinha a terrinha pras necessidades?
- Da perfumada.
- Você dava carinho?
- Eu ia dormir, ele vinha junto.
(pausa)
- É isso, querido. A gente cria os filhos pro mundo...
(silêncio)
- Mãe, posso dormir aí hoje?!
- Venha, venha.

* 02.05.2010.

domingo, 2 de maio de 2010

23.05.2003

E você vem e vai
E você diz bye bye.
Assim já é demais,
Eu gosto de você
E você nem aí.
Não liga nem escreve
E quando volta, é rápido
Mal pisco e já me esquece.
E você vem e vai,
Assim já é demais.
De novo eu não aguento.
Me deixa aqui e segue o vento.
Agora é pra valer:
Ou você fica...
Ou vai me perder.

P. T. D. - 6*

- Você viu onde eu guardei minha mochila depois da última faxina, Alzheimer querido?

* 27.03.2010

quarta-feira, 28 de abril de 2010

07.05.2003

Quando não sabia o que escrever, apesar do desejo de dizer, ficava parado segurando a caneta com a mão esquerda, enquanto a direita pousava sobre suas pernas, acariciando-as lentamente. Olhando ao redor, reparando a cama bem forrada, seus livros, o ventilador, os sapatos, todo o quarto. A porta sempre fechada. E olhava também além; via através da janela, o céu. E o quintal antes do céu. Havia a sensação de estar perdido e, justamente, por isso, mirava o céu, o alto.
Sempre que viajava para um lugar desconhecido e, por acaso, se perdia, costumava olhar para o alto, em busca de um ponto de referência. Encontrava o céu e depois se encontrava... Mesmo que fosse para decidir não escrever naquele dia.


* Imagem de arquivo pessoal.

P. T. D. - 5*

Gato 1 x Rato -1

* 25.03.2010.

domingo, 25 de abril de 2010

P. T. D. - 4*

O rato roeu a roupa do Sr. Reticente.
O Sr. Reticente rosnou raivoso "rato ridículo!"


* 23.04.2010

Ímpar*

Par?!
Partido, só se for!
Repartido!
Par-tido: mas nem o tive para ser meu par.
Porém teve a mim. Para repartir-me.
Repartir-me: partir de mim outra vez


* 28.05.2000.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

As 4 primeiras linhas de 26.03.2003

Ele não sabia o que fazer. A ficção, quando aquilo, aqueles textos deixaram de ser ficção e passaram a ser um retrato do que realmente acontecia. Ele só sabia que precisava escrever, que não poderia parar. Escrever qualquer bobagem. (...).

P. T. D. - 3*

- Alô, é do Ibama?! Estou ligando para informar que eu descobri uma nova espécie de... Bem, não sei exatamente que bicho é esse, mas ele mora aqui em casa com a família e lembra um pernilongo, só que ele tem 8 patas enormes e emite um som parecido com o de um grilo no cio... Grilo entra no cio?!...


* Sem data, mas foi um dia desses, no começo do mês... Eu acho.

domingo, 18 de abril de 2010

P. T. D. - 2*

- Senhor, por favor, proteja o gatinho de todos os bichos dessa casa, ele é apenas um filhote e ainda é cedo para saber se defender. Obrigado. Boa noite. Amém!

* 04.04.2010

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Versão 14.04.2010 de 19.10.2006

Falta uma coisa aqui dentro de mim.
Há uma necessidade dentro de mim.
Não sei ao certo, não sei o que há.
Quando as coisas começam a ficar tristes,
quando eu penso mais em ir do que ficar.
Quando não há vontade de falar ou perguntar,
nem saber.
Vou pensando certas coisas,
desistindo de ideias,
fixando muitas outras,
pesando prós e contras.
Quando falta disciplina.
Quando falto, quando não vou.
Quando mesmo indo, não estou.
Peço a Deus que corra o tempo
ou pare pra eu descer.
Vai faltando um pouco mais
quando eu tento encontrar
uma razão , um motivo,
pra tanto abuso e agonia,
para tanta irritação.
Vou premeditando o fim, 
sentindo a hora chegar.
Tudo se apaga, escurece...
Mas bem lento, bem devagar.
E eu só peço que não falte
um lugar pra eu chorar.

domingo, 11 de abril de 2010

P. T. D. - 1*

- O que tá acontecendo, eu não entendo, mãe!?
- Você precisa ser forte, meu filho.
- Me diz, por favor!
- A Fada das gavetas não existe. As roupas sujas não ficam limpas sozinhas...
- Oh!
(Silêncio).

* Versão 11.04.2010 de 29.01.2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Introdução a Pequenas Tragédias Domésticas*



Aquele era o último dos 12 meses naquela casa. Definitivamente não era a casa dos seus sonhos; com o banheiro sem pia, o quarto sem porta, a poeira sem fim e todos aqueles insetos que ele nem sabia que existiam. Definitivamente não era seu lugar. Mas iria mudar em um mês e embora não soubesse exatamente para onde, o fato da eminente mudança por si só já alterava seu humor. Andava mais ansioso que de costume, alternando-se ora entre picos de impaciência, com um mal humor silencioso e concentrado; e ora, em rompantes de uma alegria histérica, contagiante.

Quando pensava no quanto ainda tinha de estar ali, apesar do pouco, se comparado ao que já havia estado, calava-se e assumia uma postura seca, fechada e ameaçadora, digna de se ter na porta da frente uma placa de alerta informando "Cuidado. Dono de casa feroz!". Tinha dias que não queria acordar para não se ver ali. Em outros, que não queria voltar pra dormir. Mas então pensava na próxima morada, nos erros que não cometeria durante à busca por um novo lar; na arrumação dos livros e filmes, no espaço das coisas, nas novas dificuldades de adaptação...

Mudar, para ele, que sempre foi tão difícil, tão cheio de dores, uma tarefa tão sobre-humana, era agora uma experiência vivida com certa satisfação. Ainda havia dor, ainda possuía suas limitações, mas aprendera a instigar-se com o novo, com o incerto, com os riscos de um passo mais ousado. Tanto que seu caminhar há muito já não era mais o mesmo com tantos tropeços e vacilos, agora firme e decidido. Seu olhar, mais atento e brilhante. Seus gestos, mais precisos. Sua voz, menos carregada de ansiedade. Suas roupas, mais bonitas. Seu cabelo, bem cortado. Tudo estava diferente, estava melhor. Mas longe da perfeição, claro.

Ainda estava ali. Ainda não havia mudado. Porém já havia dado início ao processo de despedida, de transição. Já havia desistido totalmente da casa, limitando-se a breves e pontuais faxinas, só pra não correr o risco de ver toda aquela biodiversidade sofrer um salto evolutivo bem diante dele. Faltava um mês e, nesses 30 dias restantes, ele já se permitira lembrar com bom humor do que ele chamava de... Pequenas Tragédias Domésticas.


* 05.04.2010
** Imagem copiada de um link que eu não lembro mais.

domingo, 4 de abril de 2010

02.04.2010

Você me diz espera...
Você me desespera!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Versão 31.03.2010 de 06.05.2003

Às vezes, irritava-se sem motivo aparente. Simplesmente, do nada, ficava monossilabicamente curto e grosso, deixando a todos inclusive a ele mesmo, sem saber exatamente o que acontecera. Depois de um tempo e com alguma dificuldade encontrava em seu pensamento o motivo bobo de toda aquela súbita irritação, falta de paciência, silêncio emburrado... Eram sempre motivos bobos: a lembrança de um passado mal passado, uma piada de mal gosto de algum amigo ou o repentino desejo de não estar mais ali, mas não realizá-lo por saber que as outras possibilidades de destino não eram melhores que aquela - ou seja, o problema não era o lugar, o destino ou as pessoas; era ele. E por isso ficava ainda mais irritado.




* Imagem de arquivo pessoal. Foto de Horrorosa.

domingo, 28 de março de 2010

Um dia entre 2005 e 2006







será que é dessa vez?
será que haverá?
o que será dessa vez?
o que haverá?
será que é você?
será que é de vez?
o que será que haverá?
tomara que haja de vez com você!

* Imagens de arquivo pessoal. Foto de Horrorosa.

quarta-feira, 24 de março de 2010

12.04.2007



De repente um desejo incontrolável por sexo domina seu corpo e ele, desesperado, não faz nada, a não ser ir pra casa, cansado do dia, deitar e dormir!

domingo, 21 de março de 2010

Versão 21.03.2010 de 27.08.2008



Eu olho meus amigos em dias assim tão lindos e ensolarados, quando todos juntos rimos de tudo e de todos e de nós mesmos, nos provocando, atiçando, acariciando, confessando o óbvio... E até sem sol achamos graça. Penso o quanto não sei deles nem eles de mim. Penso o quanto ainda não sabemos de nada. O quanto nos falta clareza embora nos sobre sensibilidade... Eu olho para meus amigos rindo de algo bobo, quase me convencendo sobre a simplicidade de viver. Mas pensando nisso, com eles ali, ainda à minha frente, me calo um pouco e agradeço, para aliviar a dor pela certeza de que se bobear, nunca se sabe, noutro dia não estarão mais...


* Imagem de arquivo pessoal.

quarta-feira, 17 de março de 2010

De dentro*


Um eu assim,
cuidando de mim.
Observando cada
movimento de dentro.
Sou eu agora,
a um passo de
fora.


* Dezembro de 1998.
** Imagem de arquivo pessoal.

domingo, 14 de março de 2010

Fim*

que coisa, acabou
tão assim
sem mais nem menos
sem não nem sim
sei não, enfim
acabou
e fim.



* Sem data.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Versão 10.03.2010 de 27.05.2002

- O que foi?!

O outro perguntou ainda de certa distância, mas já dando passos na sua direção. Foi surpreendido. Havia dobrado uma dor insuportável e jogado num canto que não lembrava mais. Tudo estava calmo, quase esquecido - descobriria ali naquele instante que essas coisas não se esquecem - e aí esse encontro, esse acaso. Era tão improvável que aconteceu. A calmaria era apenas aparente, tudo ainda estava muito vivo ali dentro, tal qual um vulcão adormecido; essa foi a imagem que lhe veio à mente, um vulcão adormecido, tão quieto que quase esquecemos o mar de lava pulsante dentro dele, prestes a jorrar impiedoso cume a fora.

O que o outro estava fazendo ali? Se perguntava indignado como se o outro não tivesse o direito de caminhar livremente pelas ruas da cidade. Avistaram-se de longe e a sua cara de surpresa, espanto, foi tamanha que era inevitável o outro perguntar "o que foi?!".

Como o outro era lindo. Ele parado e o outro vindo em sua direção. Nessa hora, apesar do susto, da dor, do frio na boca do estômago, tudo se ajustou para deixar o outro ainda mais lindo. E ele ainda mais triste. Parece que o sol recuou um pouco para direita iluminando o rosto do outro, e este cerrou um pouco os olhos levantando um sorriso involuntário; o vento soprou mais forte e balançou os cabelos do outro, que num gesto preciso e habitual com a mão esquerda aprumo-os sutilmente; todas as outras pessoas desapareceram misteriosamente para que só os dois estivessem ali, e o outro pudesse caminhar lento na direção dele.

"O que foi?!" - era isso que se perguntava agora, como um eco do outro. A pergunta ficou suspensa enquanto o outro se aproximava. Que nome dar a tudo que aconteceu entre eles? Teria nome toda essa alegria que domina a gente quando nos encontramos no olhar do outro e o calor do abraço esquenta até quando separados? Tem nome essa falta de ar, essa dor por ouvir o outro dizer "adeus" como quem diz "olá"? Foi assim? Foi isso mesmo? Não estava sendo injusto?

E tristemente como quem constata alguma certeza absoluta, segundos após desfazer aquele olhar que parece falar, tão comum entre ele e o outro, mesmo depois do fim que doeu tanto e que demorou tanto para acabar, e agora, durante esses encontros casuais cada vez mais espaçados - o outro já estava à sua frente, tinha que desviar o olhar porque de perto os olhos gritavam; olhou para a boca do outro, então. E tristemente, com uma certeza inabalável, disse:

- Nada, foi nada. 

domingo, 7 de março de 2010

07.03.2010




As lágrimas embaçavam a vista dos dois, impedindo-os de ver o mar além do pára-brisa. Era noite e a lua fazia-se nítida tanto no céu quanto no mar. Incrível como o choro nos cega. Depois de 3 horas de conversa dentro daquele carro que os levara a tantos lugares durante os 3 anos de namoro: o fim, o comum acordo de que "é melhor assim". Mas quando se viaja parece que 3 anos são 10, talvez 15... Eram intensos, destemidos, aventureiros, por isso haviam perdido a noção do tempo em que estiveram juntos. Errantes profanos, construíram sua história pelas viagens que fizeram... Salvador, Rio, Chapada Diamantina, Olinda, Penedo, Campina Grande... Tanto mar, tanto rio, tanto peixe, o circo, tanta montanha, tanta cachoeira, tanto vinho, tanto sexo. Em cada canto, a cumplicidade crescia a passos largos e mais amigos testemunhavam o que parecia ser uma daquelas raras combinações perfeitas e eternas. Embora poucos, os mais próximos, já pressentiam que algo mais forte do que uma crise passageira se anunciava. Lamentavam. Doía em ambos e apesar de tudo o que haviam feito e dito de mais cruel e impensado, ainda pairava entre eles um silencioso "eu te amo". Incrível como o choro nos cala.

* Imagem de arquivo pessoal.

quarta-feira, 3 de março de 2010

02.03.2010



Eu te disse, meu amor, que viria à sua casa pra limpar sua vida de toda essa droga em que você se enfiou. Eu prometi que limparia seu caminho, seu cantinho, suas coisas. Eu vim só pra isso. Para te curar dessa dor quase esquecida, dessa névoa, dessa poeira acumulada. Eu vim te ver e descobrir o que eu já sabia: que tudo não passou de mentira, de invenção, de fantasia... Eu sempre imaginei tanto e tão longe - velha mania que me persegue essa a de criar realidades paralelas, projeções infundadas. Tudo mentira, desde sempre, desde o primeiro dia até o último, até agora, ontem, hoje, toda hora.

Então, cheguei à sua casa, tão linda, tão branca, tão ampla, mas tão desarrumada. Tudo como sempre, fora do lugar. Tudo à minha espera. A desordem clamando meu nome, minha mão, meu carinho, minha loucura de encontrar o canto de cada coisa, inclusive da dor, o espaço do sofrimento que não nos abandona. Mas foi fácil lidar com tudo isso, com o novo, com o tempo que passou, com o agora, com o que você dispôs em cada cômodo... Sempre tão previsível, tão sutil, tão disponível.

Foi bom pra você? Foi bom me ver? Foi bom saber, constatar, que não há, nunca houve nada? Como foi me receber tão gentil, tão amável, tão vazio? Para mim não doeu nada, afinal eu já me preparara. Eu vim apenas para isso: dizer a verdade.

E a verdade, anjo, a verdade dança diante de nós, nos convida a bailar, mas nem todos acompanham seu ritmo, seu embalo. É mais fácil evitar seus passos, fingir que não sabemos dançar. É mais fácil recusar a dança. Por mais que disfarcemos seu perfume com outros aromas, por mais que evitemos suas cores em troca de uma realidade cinza, por mais que finjamos não ouvir seu canto, preferindo melodias mornas e entediantes, mais cedo ou mais tarde, ela nos toca com sua fria, porém viva mão, e nos traz à tona. Ela nos convida diariamente a uma vida diferente.

A verdade é um desafio lançado aos nossos sentidos. A verdade nunca está totalmente coberta, pois sobra sempre um pedaço, uma peça, uma sujeira fora do tapete de mentira que enfeita nosso discurso, nosso comportamento, nossa postura, nosso lar.


* Imagem de arquivo pessoal.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Versão 08.02.2010 de 14.12.2008

As palavras não conseguiam se organizar na sua mente pra formar frases que valessem a pena serem lidas, que contassem histórias atraentes, que construíssem personagens interessantes. As palavras estavam lá, mas não sabiam mais se combinar. Agiam como os lados incompatíveis de um imã que se afastam um do outro naturalmente. As palavras estavam ali para contar, mas elas não sabiam por onde começar. Sua cabeça as embaralhou como num jogo de cartas e não soube mais desfazer o caos que provocou. Passou o dia entre inícios infecundos e finais previsíveis; numa ânsia de dizer, não soube escolher o que. Passou o dia, virou a noite, entrou na madrugada e nada. Nenhuma palavra. Nem o silêncio o ajudava. Ia dormir inconformado. Estava certo, ia calar por tempo indeterminado.

 

* Imagem de arquivo pessoal.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

15.04.2007

Tomar banho de chuva.
Refrescar.
Nadar na lama.
Resfriar.
Pular nas poças.
Se lavar.
Tem vezes que faz tempestade aqui dentro.
Tem vezes que é garoa.
Tem dias de sol.
Tenho dias bem sozinho.




* Imagem de arquivo pessoal. Foto de G.R.

domingo, 31 de janeiro de 2010

D. J.*

Deita que sou só carinho.
Se espreguiça no meu colo,
dorme encolhidinho.
Enquanto aliso sua cabeça,
fecha os olhos assim,
bem devagarinho!


* 28.01.2010.
**Imagem de arquivo pessoal.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Versão 30.01.2010 de 06.01.2002

Estranha certeza era aquela de que não sairia aquele dia. Não sabia explicar. Tempo nublado, céu cinza, pingos prata. Mas não por isso ficaria em casa. Ficaria simplesmente porque não iria. Não queria, embora fosse sábado. Não iria a lugar nenhum. Nenhum lugar que não fosse os cômodos da casa ou a praia em frente. E lá estava, em frente à praia. Que sorte, maré baixa. Que pena, vento forte. Chão de areia duro e plano. Tão branco. O chão, não; ele. Ele andou branco no chão de areia duro e plano. A maré baixa e o vento forte arrepiavam os finos pêlos dos braços e das costas, mas os passos mantinham-se firmes deixando pegadas suaves. Praia quase deserta, vento quase gelado. Ele todo arrepiado.




(A lembrança desse dia me remete a uma fase de tranquilidade, de calmaria... O céu ainda estava nublado, mas a tempestade já havia partido. Eu já podia perceber que a passagem do tempo ajuda na reorganização as coisas. Caminhar na praia naquela tarde fria de sábado, um dia tão promissor quando as preocupações não impedem o direito de ir e vir, embora servisse para constatar minha solidão, não a tornava tão cruel como em outros tempos até mais quentes que aquele) - 30.09.2012

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Versão 18.12.2009 de 17.07.2008



Exercício de viver o que não cabe nessa vida. Exercício de ver nossas vidas se cruzarem e não sabermos mais quem de fato se foi, se nós ou os outros. O exercício de ser inteiro quando só nos cobram as partes e, nós mesmos, com medo de errar, nos dividimos sem vermos o quanto nos falta inteireza, especialmente nas partes...! E enquanto eu ouço música e estudo e trabalho, espero um amor que está em mim e não nos outros.

*Imagem de arquivo pessoal (obra dos GÊMEOS - Gustavo e Otávio Pandolfo - para exposição Vertigem).

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Versão 26.01.2010 de 07.08.2008

Às vezes me dá uma sensação de que não caibo em mim. Quando não sei porque faço ou penso certas coisas. Quando sei exatamente. Quando percebo que na vida a gente vai escolhendo alguns caminhos... E voltamos antes mesmo de chegar. Paramos no meio do caminho e não sabemos por onde retornar. Ou seguimos bravos, sempre em frente e avante. Às vezes me acompanha uma solidão indescritível, nem boa nem má, apenas só, e então carrego uma certeza de que é assim mesmo...





*Imagem de arquivo pessoal. Foto de Horrorosa.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Pequeno e ligeiro*


Eu sempre quis aprender a voar.
Pousar quando bem quisesse.
Planar e ver o mar.
Ter uma casa na árvore.
Cantar afinado.
Aninhar o bem.
Cagar do alto em quem faz mal.
Ser pássaro pequeno e ligeiro.
Pra viver feliz nesse quintal.

*16.01.2007
** Imagem de arquivo pessoal.

sábado, 23 de janeiro de 2010

23.12.2009

É importante que a gente se ame.
Não importa onde,
nem importa quando.
Importa apenas que um deseje sempre ao outro,
estando perto ou distante,
sempre o melhor,
sempre conforto.
Não precisa ser amor de amante,
pode ser amor de amigo.
Ou outro qualquer.
De pai, de mãe, de irmão
ou amor de filho.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Era assim... *




Ele sabia, era assim... Sempre. E apesar do cansaço, fome e irritação - aquele trabalho o matava e certamente não morreria feliz - não faria diferente dessa vez também. O café estava quente, o pão assado nem tanto, embora os poros amanteigados brilhassem convidativos a uma, duas, várias mordidas... Até a última migalha. As colheradas de açúcar, sempre três e cheias, caíram lentamente no líquido negro e quente. Gostava assim, muito doce; nada amargo, nem chocolate. E igualmente bem devagar mexeu o café, só para que acontecesse como sempre. E mesmo vendo a colher derramar além do açúcar, pequenas manchas luminosas de gordura, talvez por estar mal lavada ou por estar próxima do manteigueiro, vai ver encostou lá sem que ele percebesse; ele não acelerou o movimento, pois não adiantaria. Seguiu vagaroso, o gesto circular do talher mergulhado na xícara cheia de café. Adorava sentir a ponta do metal arrastar o açúcar pelo fundo azul da pequena vasilha. Gostava daquele azul transparente, fazendo conjunto com o pires, transparente também.
Enquanto mexia o café com a mão esquerda, pegou o pão com a direita e o levou até a boca para tranquilizar o estômago arredio de fome. Após repousar novamente a massa de poros amanteigados no prato, ergueu o que tanto queria ver: a colher. Não, não a colher propriamente, mas o que havia na ponta do metal, os grãos de açúcar sobreviventes das mexidas lentas no líquido negro e quente. Era assim... Sempre. E ele sabia que se mergulhasse o pequeno talher algumas poucas vezes mais, na superfície mesma do café, os grãos sumiriam um a um, tão lentos como quando foram despejados junto com os outros. E assim o fez porque não seria diferente dessa vez. E em seguida a mesma pergunta de sempre, para onde iriam aqueles poucos doces grãos de açúcar? Voltariam ao fundo da xícara ou desapareceriam como a maioria sempre faz, dissolvidos no calor do líquido negro e quente. Se resistissem, possivelmente, seriam vistos depois do último gole. Mas estava tão cansado que depois de comer e beber o pão e o café, não se lembrou de verificar o destino daqueles que tanto esperava ver desaparecerem. Levou prato, pires e xícara à pia. Lavou as mãos. Enxugou-as, e saiu da cozinha para o quarto porque estava cansado e queria dormir. Ah, antes fez uma breve escala no banheiro para escovar os dentes e aí sim, seguiu para o quarto. Porque era assim... Sempre.


* versão 20.01.2010 de 21.05.2002.
** Imagem de arquivo pessoal.