domingo, 31 de janeiro de 2010

D. J.*

Deita que sou só carinho.
Se espreguiça no meu colo,
dorme encolhidinho.
Enquanto aliso sua cabeça,
fecha os olhos assim,
bem devagarinho!


* 28.01.2010.
**Imagem de arquivo pessoal.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Versão 30.01.2010 de 06.01.2002

Estranha certeza era aquela de que não sairia aquele dia. Não sabia explicar. Tempo nublado, céu cinza, pingos prata. Mas não por isso ficaria em casa. Ficaria simplesmente porque não iria. Não queria, embora fosse sábado. Não iria a lugar nenhum. Nenhum lugar que não fosse os cômodos da casa ou a praia em frente. E lá estava, em frente à praia. Que sorte, maré baixa. Que pena, vento forte. Chão de areia duro e plano. Tão branco. O chão, não; ele. Ele andou branco no chão de areia duro e plano. A maré baixa e o vento forte arrepiavam os finos pêlos dos braços e das costas, mas os passos mantinham-se firmes deixando pegadas suaves. Praia quase deserta, vento quase gelado. Ele todo arrepiado.




(A lembrança desse dia me remete a uma fase de tranquilidade, de calmaria... O céu ainda estava nublado, mas a tempestade já havia partido. Eu já podia perceber que a passagem do tempo ajuda na reorganização as coisas. Caminhar na praia naquela tarde fria de sábado, um dia tão promissor quando as preocupações não impedem o direito de ir e vir, embora servisse para constatar minha solidão, não a tornava tão cruel como em outros tempos até mais quentes que aquele) - 30.09.2012

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Versão 18.12.2009 de 17.07.2008



Exercício de viver o que não cabe nessa vida. Exercício de ver nossas vidas se cruzarem e não sabermos mais quem de fato se foi, se nós ou os outros. O exercício de ser inteiro quando só nos cobram as partes e, nós mesmos, com medo de errar, nos dividimos sem vermos o quanto nos falta inteireza, especialmente nas partes...! E enquanto eu ouço música e estudo e trabalho, espero um amor que está em mim e não nos outros.

*Imagem de arquivo pessoal (obra dos GÊMEOS - Gustavo e Otávio Pandolfo - para exposição Vertigem).

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Versão 26.01.2010 de 07.08.2008

Às vezes me dá uma sensação de que não caibo em mim. Quando não sei porque faço ou penso certas coisas. Quando sei exatamente. Quando percebo que na vida a gente vai escolhendo alguns caminhos... E voltamos antes mesmo de chegar. Paramos no meio do caminho e não sabemos por onde retornar. Ou seguimos bravos, sempre em frente e avante. Às vezes me acompanha uma solidão indescritível, nem boa nem má, apenas só, e então carrego uma certeza de que é assim mesmo...





*Imagem de arquivo pessoal. Foto de Horrorosa.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Pequeno e ligeiro*


Eu sempre quis aprender a voar.
Pousar quando bem quisesse.
Planar e ver o mar.
Ter uma casa na árvore.
Cantar afinado.
Aninhar o bem.
Cagar do alto em quem faz mal.
Ser pássaro pequeno e ligeiro.
Pra viver feliz nesse quintal.

*16.01.2007
** Imagem de arquivo pessoal.

sábado, 23 de janeiro de 2010

23.12.2009

É importante que a gente se ame.
Não importa onde,
nem importa quando.
Importa apenas que um deseje sempre ao outro,
estando perto ou distante,
sempre o melhor,
sempre conforto.
Não precisa ser amor de amante,
pode ser amor de amigo.
Ou outro qualquer.
De pai, de mãe, de irmão
ou amor de filho.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Era assim... *




Ele sabia, era assim... Sempre. E apesar do cansaço, fome e irritação - aquele trabalho o matava e certamente não morreria feliz - não faria diferente dessa vez também. O café estava quente, o pão assado nem tanto, embora os poros amanteigados brilhassem convidativos a uma, duas, várias mordidas... Até a última migalha. As colheradas de açúcar, sempre três e cheias, caíram lentamente no líquido negro e quente. Gostava assim, muito doce; nada amargo, nem chocolate. E igualmente bem devagar mexeu o café, só para que acontecesse como sempre. E mesmo vendo a colher derramar além do açúcar, pequenas manchas luminosas de gordura, talvez por estar mal lavada ou por estar próxima do manteigueiro, vai ver encostou lá sem que ele percebesse; ele não acelerou o movimento, pois não adiantaria. Seguiu vagaroso, o gesto circular do talher mergulhado na xícara cheia de café. Adorava sentir a ponta do metal arrastar o açúcar pelo fundo azul da pequena vasilha. Gostava daquele azul transparente, fazendo conjunto com o pires, transparente também.
Enquanto mexia o café com a mão esquerda, pegou o pão com a direita e o levou até a boca para tranquilizar o estômago arredio de fome. Após repousar novamente a massa de poros amanteigados no prato, ergueu o que tanto queria ver: a colher. Não, não a colher propriamente, mas o que havia na ponta do metal, os grãos de açúcar sobreviventes das mexidas lentas no líquido negro e quente. Era assim... Sempre. E ele sabia que se mergulhasse o pequeno talher algumas poucas vezes mais, na superfície mesma do café, os grãos sumiriam um a um, tão lentos como quando foram despejados junto com os outros. E assim o fez porque não seria diferente dessa vez. E em seguida a mesma pergunta de sempre, para onde iriam aqueles poucos doces grãos de açúcar? Voltariam ao fundo da xícara ou desapareceriam como a maioria sempre faz, dissolvidos no calor do líquido negro e quente. Se resistissem, possivelmente, seriam vistos depois do último gole. Mas estava tão cansado que depois de comer e beber o pão e o café, não se lembrou de verificar o destino daqueles que tanto esperava ver desaparecerem. Levou prato, pires e xícara à pia. Lavou as mãos. Enxugou-as, e saiu da cozinha para o quarto porque estava cansado e queria dormir. Ah, antes fez uma breve escala no banheiro para escovar os dentes e aí sim, seguiu para o quarto. Porque era assim... Sempre.


* versão 20.01.2010 de 21.05.2002.
** Imagem de arquivo pessoal.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Versão 14.01.2010 de 15.12.2001*

Ao contrário do que outro pediria
nessa situação desconfortante
você apaixonada
e eu indiferente
te peço que me ame para sempre
me deseje com ardor
me procure onde for
mas não o tempo todo
às vezes pare e me odeie um pouco.
aceite que foi melhor assim
queira não me ver mais
fique dias sem pensar em mim
depois me ligue
desejando paz.


*Título original: Pedido desesperado.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

De você...

Esqueço não. Mas também só lembro quando eu quero. Quando convém!










 * Imagem de arquivo pessoal. Foto de Peixinho. (Rio São Francisco - Petrolina/PE).


(Eis o problema: se é fogo de palha, quando apaga, do castelo só sobra fumaça. Se não é o cheiro de queimado, ninguém diz que ali havia um reino encantado) - 30.08.2012.

domingo, 10 de janeiro de 2010

De repente 30

E a gente um dia, pelo menos comigo foi assim, acaba percebendo ou descobrindo, não sei ao certo, que se vive de fases. Numa tentativa constante de conciliar desejos muito específicos, necessidades bem claras e obrigações inadiáveis. Os momentos vão passando enquanto a gente passa por eles sucessivamente...

Eu quis viver um grande amor, eu quis juntar dinheiro, eu quis me entender com meus pais, eu quis fazer sexo enlouquecidamente, eu quis viajar o mundo, eu quis ser o melhor no que eu faço... E continuo querendo cada uma dessas coisas num tempo diferente e, de vez em quando, também ao mesmo tempo.

Não dá pra programar. Quando você quer ser um profissional reconhecido, aparece o grande amor da sua vida. Quando você se apaixona, tem que cuidar dos pais. Quando você sobe de cargo, o namoro acaba. Quando tá tudo bem, um amigo morre... E de repente, já se tem 30 anos... E eu já tenho 30 anos! E tudo acontece tão rápido que fica difícil saber exatamente como chegamos onde nós estamos agora! Tenho buscado atenção para não esquecer do caminho, para aprender com ele; é difícil e dorido às vezes, mas é preciso, é o único jeito de não se perder.

É que a gente nunca sabe precisamente o que importa. E nem sempre o que nos importa, importa aos outros. E a gente quer apenas acertar! Eu quero apenas acertar. Por isso tento! Por isso erro!

O que eu quero dizer é que, inevitavelmente, eu vou te deixar triste, mesmo sem querer, porque o que eu sinto é diferente do que você sente. Por diversas razões, algumas inexplicáveis! Mas não se assuste quando eu sorrir do nada e você vir o brilho da sua alegria estampada nos meus olhos. E vamos indo, entre choros e risos e no que há entre eles.

E amanhã poderemos sentir tudo ao contrário, porque os papéis se invertem sem aviso prévio. E a gente vai sentido hoje até o amanhã não vir mais!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Versão 06.01.10 de 27.06.06

Talvez nessa transição do signo para o ascendente, se isso existe mesmo; talvez por isso já que chegara o momento de acontecer, quando as características de Peixes começaram a subjugar as de Capricórnio, apesar de sua persistência, vai entender, mas já não havia tanta persistência, nem montanha pra subir como costumam comparar, ao contrário um medo terrível de altura, de subir, de ir além. Havia agora uma cerca ociosidade, falta de objetividade e excesso de libido. Agora o oceano à sua frente... O mar estava agitado, mas a maré estava baixando. Isso lhe tranquilizava, percebia que o momento não era de desespero. Restava seguir a correnteza, aceitar o sal da água e guardar tanto oxigênio quanto lhe coubesse no peito. Tudo mudaria, e para melhor!





* Imagem de arquivo pessoal (praia de Jacarecica - Litoral Norte de Maceió).

domingo, 3 de janeiro de 2010

Versão 03.01.10 de 06.07.07


Ele estava ali há um tempo, inquieto, porém calmo: respirava profundamente; olhava para o teto; olhava pela janela; olhava para o papel e se coçava... Estava sentado à mesa. O caderno de folhas brancas sem pauta, aberto à sua frente. O lápis à mão... E nada de escrever. Tantos pensamentos, tantas possibilidades, tantas frases feitas boiando na cabeça. Frases refeitas e desfeitas, mas raramente escritas. Sempre ensaios, nunca estreias. Lembranças, desejos, músicas, poesias, contos e outras tantas reticências. Silêncio. Ele não escrevia nada. Mantinha-se em pausa. Suspenso. O lápis, a ponta do lápis triscando o papel, talvez nem chegasse a riscar exatamente. Era difícil decidir por onde começar. Mais do que decidir, era começar. E então foi por onde pensava ser mais seguro: por ele mesmo... Se arrependeu, a princípio, pois percebeu que não passava de reticências. Não era tão seguro assim. Mas era por onde sempre ia. Talvez a questão não fosse segurança ou ausência de. O fato é que só podia começar por ele mesmo, porque de todas as histórias fictícias que conhecia, a que mais lhe chamava atenção, a que mais lhe despertava interesse, era a sua própria; justamente por conta de todas suas reticências. Era sobre ele que gostaria de escrever, não por questão de ego precisamente, mas porque imergir em si mesmo já havia se tornado um exercício tão constante que fazê-lo sem registro seria certamente perigoso ou... Havia algo além das reticências e ele queria saber o que.


(Como assim "inquieto, porém calmo"?! Vai saber, talvez inquieto no sentido de agoniado por dentro, as coisas acontecendo onde residem os pensamentos ou naquela parte do corpo chamada "boca do estômago"; porém apesar dessa agonia interna, nenhum esboço no rosto. Não quero me explicar, quero me entender! Por isso essa mania de ficar me observando, procurando algum detalhe nas coisas que faço e penso, na esperança de me encontrar. Esse blog começou aqui na verdade!!!) - 05/06/2011.

Um instante...*

Enquanto eu decido o que escrever









* 07.08.2008