quarta-feira, 31 de março de 2010

Versão 31.03.2010 de 06.05.2003

Às vezes, irritava-se sem motivo aparente. Simplesmente, do nada, ficava monossilabicamente curto e grosso, deixando a todos inclusive a ele mesmo, sem saber exatamente o que acontecera. Depois de um tempo e com alguma dificuldade encontrava em seu pensamento o motivo bobo de toda aquela súbita irritação, falta de paciência, silêncio emburrado... Eram sempre motivos bobos: a lembrança de um passado mal passado, uma piada de mal gosto de algum amigo ou o repentino desejo de não estar mais ali, mas não realizá-lo por saber que as outras possibilidades de destino não eram melhores que aquela - ou seja, o problema não era o lugar, o destino ou as pessoas; era ele. E por isso ficava ainda mais irritado.




* Imagem de arquivo pessoal. Foto de Horrorosa.

domingo, 28 de março de 2010

Um dia entre 2005 e 2006







será que é dessa vez?
será que haverá?
o que será dessa vez?
o que haverá?
será que é você?
será que é de vez?
o que será que haverá?
tomara que haja de vez com você!

* Imagens de arquivo pessoal. Foto de Horrorosa.

quarta-feira, 24 de março de 2010

12.04.2007



De repente um desejo incontrolável por sexo domina seu corpo e ele, desesperado, não faz nada, a não ser ir pra casa, cansado do dia, deitar e dormir!

domingo, 21 de março de 2010

Versão 21.03.2010 de 27.08.2008



Eu olho meus amigos em dias assim tão lindos e ensolarados, quando todos juntos rimos de tudo e de todos e de nós mesmos, nos provocando, atiçando, acariciando, confessando o óbvio... E até sem sol achamos graça. Penso o quanto não sei deles nem eles de mim. Penso o quanto ainda não sabemos de nada. O quanto nos falta clareza embora nos sobre sensibilidade... Eu olho para meus amigos rindo de algo bobo, quase me convencendo sobre a simplicidade de viver. Mas pensando nisso, com eles ali, ainda à minha frente, me calo um pouco e agradeço, para aliviar a dor pela certeza de que se bobear, nunca se sabe, noutro dia não estarão mais...


* Imagem de arquivo pessoal.

quarta-feira, 17 de março de 2010

De dentro*


Um eu assim,
cuidando de mim.
Observando cada
movimento de dentro.
Sou eu agora,
a um passo de
fora.


* Dezembro de 1998.
** Imagem de arquivo pessoal.

domingo, 14 de março de 2010

Fim*

que coisa, acabou
tão assim
sem mais nem menos
sem não nem sim
sei não, enfim
acabou
e fim.



* Sem data.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Versão 10.03.2010 de 27.05.2002

- O que foi?!

O outro perguntou ainda de certa distância, mas já dando passos na sua direção. Foi surpreendido. Havia dobrado uma dor insuportável e jogado num canto que não lembrava mais. Tudo estava calmo, quase esquecido - descobriria ali naquele instante que essas coisas não se esquecem - e aí esse encontro, esse acaso. Era tão improvável que aconteceu. A calmaria era apenas aparente, tudo ainda estava muito vivo ali dentro, tal qual um vulcão adormecido; essa foi a imagem que lhe veio à mente, um vulcão adormecido, tão quieto que quase esquecemos o mar de lava pulsante dentro dele, prestes a jorrar impiedoso cume a fora.

O que o outro estava fazendo ali? Se perguntava indignado como se o outro não tivesse o direito de caminhar livremente pelas ruas da cidade. Avistaram-se de longe e a sua cara de surpresa, espanto, foi tamanha que era inevitável o outro perguntar "o que foi?!".

Como o outro era lindo. Ele parado e o outro vindo em sua direção. Nessa hora, apesar do susto, da dor, do frio na boca do estômago, tudo se ajustou para deixar o outro ainda mais lindo. E ele ainda mais triste. Parece que o sol recuou um pouco para direita iluminando o rosto do outro, e este cerrou um pouco os olhos levantando um sorriso involuntário; o vento soprou mais forte e balançou os cabelos do outro, que num gesto preciso e habitual com a mão esquerda aprumo-os sutilmente; todas as outras pessoas desapareceram misteriosamente para que só os dois estivessem ali, e o outro pudesse caminhar lento na direção dele.

"O que foi?!" - era isso que se perguntava agora, como um eco do outro. A pergunta ficou suspensa enquanto o outro se aproximava. Que nome dar a tudo que aconteceu entre eles? Teria nome toda essa alegria que domina a gente quando nos encontramos no olhar do outro e o calor do abraço esquenta até quando separados? Tem nome essa falta de ar, essa dor por ouvir o outro dizer "adeus" como quem diz "olá"? Foi assim? Foi isso mesmo? Não estava sendo injusto?

E tristemente como quem constata alguma certeza absoluta, segundos após desfazer aquele olhar que parece falar, tão comum entre ele e o outro, mesmo depois do fim que doeu tanto e que demorou tanto para acabar, e agora, durante esses encontros casuais cada vez mais espaçados - o outro já estava à sua frente, tinha que desviar o olhar porque de perto os olhos gritavam; olhou para a boca do outro, então. E tristemente, com uma certeza inabalável, disse:

- Nada, foi nada. 

domingo, 7 de março de 2010

07.03.2010




As lágrimas embaçavam a vista dos dois, impedindo-os de ver o mar além do pára-brisa. Era noite e a lua fazia-se nítida tanto no céu quanto no mar. Incrível como o choro nos cega. Depois de 3 horas de conversa dentro daquele carro que os levara a tantos lugares durante os 3 anos de namoro: o fim, o comum acordo de que "é melhor assim". Mas quando se viaja parece que 3 anos são 10, talvez 15... Eram intensos, destemidos, aventureiros, por isso haviam perdido a noção do tempo em que estiveram juntos. Errantes profanos, construíram sua história pelas viagens que fizeram... Salvador, Rio, Chapada Diamantina, Olinda, Penedo, Campina Grande... Tanto mar, tanto rio, tanto peixe, o circo, tanta montanha, tanta cachoeira, tanto vinho, tanto sexo. Em cada canto, a cumplicidade crescia a passos largos e mais amigos testemunhavam o que parecia ser uma daquelas raras combinações perfeitas e eternas. Embora poucos, os mais próximos, já pressentiam que algo mais forte do que uma crise passageira se anunciava. Lamentavam. Doía em ambos e apesar de tudo o que haviam feito e dito de mais cruel e impensado, ainda pairava entre eles um silencioso "eu te amo". Incrível como o choro nos cala.

* Imagem de arquivo pessoal.

quarta-feira, 3 de março de 2010

02.03.2010



Eu te disse, meu amor, que viria à sua casa pra limpar sua vida de toda essa droga em que você se enfiou. Eu prometi que limparia seu caminho, seu cantinho, suas coisas. Eu vim só pra isso. Para te curar dessa dor quase esquecida, dessa névoa, dessa poeira acumulada. Eu vim te ver e descobrir o que eu já sabia: que tudo não passou de mentira, de invenção, de fantasia... Eu sempre imaginei tanto e tão longe - velha mania que me persegue essa a de criar realidades paralelas, projeções infundadas. Tudo mentira, desde sempre, desde o primeiro dia até o último, até agora, ontem, hoje, toda hora.

Então, cheguei à sua casa, tão linda, tão branca, tão ampla, mas tão desarrumada. Tudo como sempre, fora do lugar. Tudo à minha espera. A desordem clamando meu nome, minha mão, meu carinho, minha loucura de encontrar o canto de cada coisa, inclusive da dor, o espaço do sofrimento que não nos abandona. Mas foi fácil lidar com tudo isso, com o novo, com o tempo que passou, com o agora, com o que você dispôs em cada cômodo... Sempre tão previsível, tão sutil, tão disponível.

Foi bom pra você? Foi bom me ver? Foi bom saber, constatar, que não há, nunca houve nada? Como foi me receber tão gentil, tão amável, tão vazio? Para mim não doeu nada, afinal eu já me preparara. Eu vim apenas para isso: dizer a verdade.

E a verdade, anjo, a verdade dança diante de nós, nos convida a bailar, mas nem todos acompanham seu ritmo, seu embalo. É mais fácil evitar seus passos, fingir que não sabemos dançar. É mais fácil recusar a dança. Por mais que disfarcemos seu perfume com outros aromas, por mais que evitemos suas cores em troca de uma realidade cinza, por mais que finjamos não ouvir seu canto, preferindo melodias mornas e entediantes, mais cedo ou mais tarde, ela nos toca com sua fria, porém viva mão, e nos traz à tona. Ela nos convida diariamente a uma vida diferente.

A verdade é um desafio lançado aos nossos sentidos. A verdade nunca está totalmente coberta, pois sobra sempre um pedaço, uma peça, uma sujeira fora do tapete de mentira que enfeita nosso discurso, nosso comportamento, nossa postura, nosso lar.


* Imagem de arquivo pessoal.