domingo, 25 de julho de 2010

Versão 24.07.2010 de 28.06.2008

Os escorpiões continuam saindo pelos ralos e pia do banheiro como que flores brotando num jardim de terra fértil. 

Já tentei sandálias, pá, álcool, água sanitária, água fervendo, e eles, sempre pela madrugada e justo quando preciso de um banho ou lavar o rosto, aparecem para atormentar meu juízo já cansado do dia. Passo o resto da noite com medo de que também estejam em meus lençóis, prontos para se vingar, para cobrar o que fiz aos seus, que não tiveram culpa de se perderem e virem parar aqui. 

Existe algo de fascinante no escorpião. Algo de bravura, de ousadia, de indiferença... De certeza de si. Algo nesses termos que me leva o resto de segurança que ainda tento sustentar nesses dias tão sem cor e frágeis que tenho passado, com as vontades tão incertas...

A persistência dos escorpiões que matei me faz tremer. Eles que estavam lá, no seu canto - sem culpa de serem escorpiões desbravadores de canos d'água - tão de bem consigo, morreram lutando, tentando acertar o que fosse com suas caudas peçonhentas, pois acreditavam lutar pelo que lhes era de direito, afinal caminharam muito até chegar aqui, no banheiro desse apartamento. 

Minha vontade é fazer as malas e deixar todos os cômodos para esses pobres escorpiões, mais obstinados que o mais obstinado dos capricornianos. E partir ralo a fora, ralo a dentro em busca de meu próprio lugar.

Série "Macro" - 4/4


Um presente carinhoso do Dia de São Valentin.*

* Fevereiro de 2005.
** Imagem de arquivo pessoal.

domingo, 18 de julho de 2010

Trecho revisado de 13.08.2003

Não lembro muito bem do caminho de volta até sua casa. Não lembro o que foi dito, se foi dito alguma coisa. Não lembro. Mas não esqueço que antes de você descer, você me olhou e percebeu que se meus olhos tivessem mãos, eles te agarrariam, não te deixariam sair, te levariam comigo; e você disse: não me olhe com essa cara, por favor - como quem diz que as coisas vão melhorar, que eu não deveria ficar triste.

Também não lembro como cheguei em casa. Sei apenas que dormi com a certeza de que acordaria infeliz na manhã seguinte, porque saímos para conversar sobre um amor que quase deu certo, sobre uma amizade cuja cumplicidade encontrava-se ameaçada, talvez já nem houvesse mais. Porque saímos para acertar as diferenças, os desencontros, os malentendidos, para eliminar o desconforto de cada encontro desde então... E acabamos transando enlouquecidos no banco traseiro do meu carro sob o breu de um coqueiral. Sem resolver nada disso e, pior, agindo como se aquela transa fosse justamente o que faltava para as coisas acabarem bem. Como a despedida com chave de ouro para o que já não brilhava mais.

E acordei. Infeliz. Insatisfeito...

Série "Macro" - 3/4



Às vezes dou atenção demais ao que não merece, mas de repente me acho e o tempo volta a ser meu aliado.*

* Ano 2009. Data incerta.
** Imagem de arquivo pessoal.

domingo, 11 de julho de 2010

Debande

Não, não vou dar o braço a torcer.
Não, não vou mais torcer por você.
Nem vou falar com você.
Não quero mais te ver.
Vá pra longe, bem longe.
E não me diga onde.
Porque eu não vou te ver.
Não vou mais buscar você.
Saia daqui.
Debande.
Siga adiante.
E não me olhe ao sair.

* 01.02.2001

Série "Macro" - 2/4


Se falta energia brinco de teatro de sombras.*

* Entre setembro e outubro de 2008.
** Imagem de arquivo pessoal. 

domingo, 4 de julho de 2010

23.04.2010

Dancei tristeza hoje à noite.
Uma saudade do que nunca tive de fato.
Uma ausência que me persegue desde jovem.
Hoje dancei como louco em busca de uma explicação
para tanto gesto equivocado,
tanto movimento descoordenado.
Hoje dancei solidão.

Série "Macro" - 1/4


Esse caranguejo apareceu na casa antiga.
Fugindo da água doce que já era poluída.
Cansado e assustado, não aceitou comida ou bebida.
Tentei reanimar. Espumou e morreu!*

* 04.07.2010.
** Imagem de arquivo pessoal.