quarta-feira, 22 de junho de 2011

Versão 22.06.2011 de 12.07.2010

Calma, ninguém ficará sabendo. Vamos enganar a todos, eu te digo assim, bem baixinho, quase inaudível. E assim preservo seu sono. Não tenha receio do que está sentindo, pois o medo e a culpa não são privilégios seus. Mas o que há de se fazer depois do crime cometido? 

Calma, será tão bom carregar esse crime com a gente. Por hora apenas durma que essa noite é nossa e sem ameaças, que estamos sós agora. Ninguém suspeitará de absolutamente nada, nem sequer dessa crise de consciência que certamente sentiremos nos dias em que as vítimas dessa trama nos olharem mais carinhosas que de costume e declararem seu amor por nós. 

Calma, que será até divertido pensar em todas as mentiras e acreditar nelas.  Combinar os detalhes entre beijos e abraços sorrateiros. Será tão instigante seguirmos cúmplices e insuspeitos, para então só lá na frente, anos depois, quando talvez apenas um de nós estiver ainda aqui, tudo vir à tona, como num passe de mágica, e nos olharem pasmos, revoltados e indignados. E nos perguntarão por que. E nos amaldiçoarão. E nos dirão vis, sem caráter, falsos, perversos. E aquele que ainda estiver por aqui só saberá dizer que não se via outro caminho, que não havia outra escolha menos dolorosa, que tudo aconteceu tão naturalmente e sem aviso prévio, sendo justamente por isso tão envolvente e tentador, que a opção pela mentira fora a única maneira de garantir a paz de todos. Isso, a fim de manter as coisas nos seus devidos lugares, de não romper com a ordem estabelecida ou fazer sangrar o coração de quem tanto amamos, é que escolhemos o subterrâneo mundo do fingimento e da dissimulação. Porque não há outra versão para os fatos, senão essa. 

Calma, que depois disso virá o alívio e alguém há de ouvir aquele que ainda estiver por aqui e o compreenderá. E só então será possível iluminar sem medo a nossa história, já finda e amarelada.

2 comentários:

Antônio Sozinho disse...

Meu amigo, que coisa bonita.

Parole disse...

Querido, que deslumbrante a sua narrativa... as palavras parecem fluir.Belíssimo!

Beijos