domingo, 29 de abril de 2012

11.08.2011

- O que?
- Nada.
- Não, você disse alguma coisa...
- Não, não disse.
- Sim, você disse, eu ouvi você sussurrar alguma coisa.
- Eu só pensei alto...
- O que?
- Nada
- Você pensou alto nada?!!
- Foi. Eu pensei... "nada!"
- Ninguém pensa "nada".
- Ué eu penso.
- Você não pensa.
- Eu penso sim!
- Pensa nada!
- Penso muitas coisas...
- O que?
- O que o que?
- O que você pensa além de nada?
- Nada... Nada.
- O que você disse?!
- Nada... Nada.
- Eu ouvi!
- E por que perguntou?
- Não, eu ouvi, mas não entendi o que você pensou alto.
- Mas eu já disse, nada!
- Nada nada.
- Você não é normal!
- O que você disse?
- Deixa pra lá...
- O que?
- O que o que?
- Não, você disse alguma coisa...
- Não, não disse!
(...)

Mais um trecho de 15-16.11.2010

Sobre rezar, lembro que suava quando juntava as mãos e pedia a Deus proteção. Algo mágico acontecia, não se sua quando reza, mas eu sim, sentia um calor ao redor do corpo a cada frase da oração. Hoje não, hoje por mais que eu reze, sinto um vazio, um oco, um frio. Me sinto longe de toda a fé de menino. Parece que estou fingindo, Deus deve rir de mim, talvez lamentar por todo esforço que faço em vão. Aí tento ser bom, justo, amigo, leal, honesto e quando erro peço desculpas. Nem isso alivia mais, porque no fundo eu sinto, e como me angustia dizer isso, no fundo eu estou pouco me importando. Sou movido à culpa. Ou à necessidade de dormir com a certeza de que não tirei nada de ninguém ou nada de lugar. A minha consciência é a imagem de bom moço que fazem de mim. Se ponho essa imagem em risco, tropeço, gaguejo, não durmo. Na verdade sou um cristão frustrado. Um espírita desregrado. Um ateu enrustido. Imagina quando eu reler tudo isso amanhã ou depois e me deparar com... Eu era. Eu sou. Eu não sei, demoro a aprender.


(Tenho tido tanta dúvida e medo. Estou tão em falta com a fé, de todo tipo, parece que perdi a capacidade de acreditar. São só perguntas e nenhuma certeza. Queria lembrar de vidas passadas ou ser assombrado por fantasmas, talvez assim ao menos essa dúvida se dissipava. Será o fim depois que acaba?) - 25.08.2012.

domingo, 22 de abril de 2012

18.04.2012

Contando os dias
já se foram trinta
Apenas trinta
de uma vida
interrompida
E a conta do que não será mais
aumenta não somente os dias,
mas também a saudade
e a dor de ter tanto
e não poder mais
te contar.

domingo, 15 de abril de 2012

Série Amor de Circo* - 7/7

Não sei fazer mágica, então peço, suma daqui. Com essas palavras, pausadamente, revelei o truque ao público. Mostrei toda dor escondida, camuflada, despistada durante um longo intervalo sem te ver. O que houve, me perguntei, para que você virtuosamente surgisse na minha frente fazendo malabarismo com suas lágrimas de plástico, tentando me convencer a repensar a parceria no circo de horrores a que me prendera sem notar que seguia com contrato fraudado. Não, mágico desmascarado, hoje não te dou aplauso! Saia calado, porque meu coração não é palco pra truque plagiado. Não insista, ou te jogo na jaula da mulher macaco! Você viu que eu não estava para brincadeira, errou o alvo e por isso saiu de mãos vazias, gritando revanche como se a culpa fosse minha e não da sua mira. No finzinho, meu bem, a maçã do amor é amarga. Agora sim, a vida voltava a ter graça.

* Título provisório (trecho escrito em 26.07.2011 - versão de 20.02.2012).

sábado, 7 de abril de 2012

05.11.2011

Uma chuva lavou minhas ideias e o vento que a acompanhou varreu quase todos os meus preconceitos e certezas imutáveis presas ao meu peito. Não sei como começar isso. Sei apenas que nesse exato instante estão se processando dezenas, centenas talvez, de pensamentos, imagens e relações de tamanha simplicidade e muito provavelmente por isso me sobra apenas o espanto diante desse fato.
A chuva, a energia, as vontades, o tempo, os olhares, as percepções, os desejos comuns e as forças contrárias... A barata que acabo de matar que cruzou meu caminho horas antes de eu me deitar. O que aconteceu há pouco não vai para meu calabouço, não posso deixar pra lá, nem guardar longe do meu olhar, não esse que vê, o físico, a matéria, mas aquele que me ensina a prudência, por instinto ou intuição, que me diz "vá com calma" ou "pode confiar" ou ainda "não é o que você pensava". O exercício, lá vou eu com essa mania de exercício, mas é que não conheço outra palavra, e então esse exercício de olhar para outro como se deve olhar para si mesmo, com amor, com generosidade, livre para se surpreender... Fui surpreendido pela chuva, pela música, pelo músico, pelos amigos e desconhecidos, pelas vítimas da minha arrogância. Fui surpreendido porque acolhido. Não sei onde isso vai dar...

Série Amor de Circo* - 6/7

Sabem como é. Show que dá certo sempre atrai mais público. Foi assim, com muita disciplina que adquiri precisão e leveza para transitar de um quadro para outro, aperfeiçoando técnica e disfarçando com mais destreza a insegurança que você me deixou de herança. Flores no camarim, bilhetes de admiradores secretos. Meu coração voltava a brilhar, ele que se contorceu tanto e por pouco desaprendeu a desatar. Talvez isso ou me diga o que que te fez voltar.

* Título provisório (trecho escrito em 19.02.2012).

domingo, 1 de abril de 2012

Série Amor de Circo* - 5/7

Arrastei os dias nas costas, pedalando um monoclico com pneu furado. Suei frio de tanta mágoa, mas a cada pedalada as horas se enchiam um pouco mais de graça, tristeza levemente disfarçada. Quem via, sabia do número mal ensaiado. No entanto aos poucos aprendi as gagues e quando tinha sorte de você não aparecer na plateia, arriscava até acrobacia, que nunca foi meu forte. E com algum esforço até arrancava aplausos... Voltava pra casa com satisfação, que mesmo sem muito jeito, havia motivo para comemoração.

* Título provisório (trecho escrito em 18.02.2012 - versão de 07.01.2012).