quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Poder da Asa Quebrada: breve terror doméstico*

Uma barata de asa quebrada não é simplesmente uma barata desprovida de vaidade; é uma guerreira, um indivíduo superior entre seus pares, aliás ela não tem par, ela é ímpar, banida do seu grupo por canibalismo; é uma protagonista em potencial de um Jean Genet ou de qualquer outro autor que o valha. Ela não cabe em pecinhas infantis ou romances poéticos-metafóricos. Ela é um ser cru, sem meias palavras. Inclusive ela não fala, mas emite sons guturais, ancestrais, indecifráveis e, especialmente, a-me-a-ça-do-res. Sua asa quebrada é a prova assimétrica do seu instinto sanguinário de sobrevivência, a confirmação incontestável de todas as batalhas vencidas contra escorpiões, ratos, inseticidas, sandálias, radiações ou gritos supersônicos. É história de vida, como uma cicatriz no meio do rosto do criminoso mais impiedoso. A história que ela não esquece, a história que a faz seguir implacável e destemidamente por entre esgotos, lixeiros, ruas e ralos. Elas são raras, mas existem e podem estar te vendo agora, pela janela do seu quarto, no canto escuro do seu guarda-roupa, nas sombras do seu banheiro...

E foi na pia da minha cozinha que eu a avistei. Já era tarde, todos dormiam, mas eu tinha sede de tórrido verão e resolvi beber um pouco d'água antes de deitar. Assim que acendi a luz da cozinha, meus olhos pousaram sobre ela. Que estava lá entre a pia e o microondas. Não havia prato sujo, talher, farelos ou qualquer outro aperitivo, pois eu mesmo havia limpado a cozinha horas antes, justamente para evitar a visita indesejada de seres dessa natureza. Mas ela estava lá, com sua asa em riste, suas antenas incontroláveis e sua mandíbula insaciável. Ela olhou pra mim. Parei. Logo de cara percebi que não se tratava de uma simples barata, uma pobre barata machucada, frágil e fácil de abater. Havia uma calma, uma frieza naquele ser disforme e faminto. Suas patas, mais grossas do que se espera de uma barata, talvez pela impossibilidade de voar, não se moviam, porém estavam alertas, como a espada de um samurai.

Esqueci sede, sono e calor. Meu sangue parou, minha alma gelou. Moveu as antenas, como quem diz "en garde". O desespero evidente ameaçava a minha honra de dono de casa. Pisquei. Num gesto rápido porém impreciso saquei minha sandália e investi uma tímida pancada sobre ela. Tolice. Rolou como um ninja para baixo do microondas. Silêncio. Arrependimento. Pânico. E eu, onde me escondo?! Sim, porque ela não fugiu simplesmente; ela se protegeu para devolver o ataque, eu sentia. Das sombras do microondas eu sentia o calor do seu olhar vingativo voltado totalmente para mim. Onde eu me escondo?! A geladeira pareceu pequena demais, o armário apertado demais, a mesa baixa demais... Onde eu me escondo, Deus?!! A porta!! Se eu andar com cuidado, de costas, olhos fixos no microondas, eu consigo sair da cozinha, com sorte alcanço o quarto e ganho alguns minutos mais... Nova piscada. Ainda não havia sequer devolvido a sandália ao pé. Mais uma rápida batida sobre a pia e ganhei tempo para correr sem olhar pra trás e não ver os dentes do predador. Corri da cozinha para sala e da sala para meu quarto, na escuridão da casa em uma fração de segundos. Movi quantos móveis encontrei no caminho para deixar o maior número de obstáculos possível entre mim e a caçadora-errante-de-asa-quebrada.

Porta trancada, travesseiros na fresta, janelas travadas, cortinas fechadas. Um instante de alívio. Um instante apenas, pois não demorou muito e percebi a porta sendo arranhada. Jesus, ela é raceada com cupim, só pode!!! Pânico. Uma batida mais forte, e não suportei. Aaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh!!!!!

- Menino, o que houve?!!! O que foi isso?!! Tá louco?!!... Foi outra barata?!!

¬¬ (fui dormir).


* Escrito entre 22.12.2011 e 19.02.2012.

Um comentário:

João disse...

Estou numa semana daquelas. Domingo eu apareço aqui novamente e no seu inbox, ma de forma mais decente.

Boa noite para você.