domingo, 29 de junho de 2014

19.03.2013

Farejo uma rima a parágrafos de distância.

06.08.2013 com pequena alteração em 29.06.2014

Ela calada causa agonia, irritação.
Mas se fala, recebe um não.
Nunca o que diz faz sentido ou interessa.
Nunca é motivo para uma conversa,
porque banal ou desconhecido dela.
Mas daí ela se cala, não aguentam,
imploram que fale
que faça algo diferente.
E quando ela tenta,
lhe retornam com indiferença.

De quem é a culpa?
Não interessa. Nunca será nossa
(incluindo ela).
Sempre será (unicamente) dela.

E ninguém experimenta testar outra coisa,
(efetivamente) outra forma de agir.
Ninguém pensa em mudar a si,
porque quem tem que mudar
é ela, que não pode ser quem é.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Versão 25.06./2014 de 17.12.2012

Ele então sentou-se na cama sem pressa, embora já passasse das 02h da madrugada e precisasse levantar às 07h. Sentou-se lentamente apoiando as mãos sobre o colchão com o cuidado de um bailarino sempre atento aos detalhes da sua sequência coreográfica. Respirou fundo um par de vezes acompanhando suavemente o trajeto do ar no seu corpo. Fosse apenas isso e logo estaria no sétimo sono. Mas seria difícil dormir daquele jeito, com o olhar tão inquieto contrastando com toda aquela languidez do resto do corpo. Era isso que queria acalmar antes de deitar, se não o fizesse certamente não dormiria. Fixou os olhos no guarda-roupa à sua frente, dando-lhes ordem de parar, mas feito crianças mal-criadas eles logo correram para o chão, depois para os sapatos, o tapete, a porta, subindo em seguida para o teto, a lâmpada, a teia, a muriçoca... Cobriu às pressas o rosto com as mãos na mesma intensidade de quem diz "calma", mas sem dizer. Não adiantou muito, os olhos ultrapassavam as frestas entre seus dedos e continuavam livres pelo quarto... Ele insistiu, mantendo as mãos sobre o rosto, fechando o quanto podia as pistas de luz por onde seus olhos fugiam. Sim, dormia com as luzes acesas. Sutilmente passou a se acariciar, levando os dedos pela testa, sobrancelhas, pálpebras, as palmas das mãos sobre as bochechas, depois pela barba... Os olhos, enfim, pareceram entender o recado. Algo naquele toque tranquilizou seu olhar. E fez algo mais. Da mesma maneira lenta como se sentou, seus olhos vagarosamente molharam-se e passaram a lançar lágrimas por entre seus dedos. Não havendo o que fazer, largou o rosto liberando a represa. Agora seus olhos miravam o nada enquanto lavavam sua barba. No tempo que despencava sobre seu colo, não a barba, mas as lágrimas, ele nem se deu conta da sua coluna se curvando e pendendo para o lado até tocar com o tronco o colchão, suas pernas seguiram o movimento e logo ele se encontrava encolhido na beirada da cama. As lágrimas ainda corriam, agora molhando o travesseiro, mas espaçadamente, cessando à medida que o corpo se acomodava por completo na cama. Um longo bocejo apareceu sem avisar e tratou de cerrar os olhos sorrateiramente com a pressão da boca se abrindo. Dormiu antes mesmo de sentir o caminho de lágrimas em seu rosto secar.

domingo, 22 de junho de 2014

22.06.2014

O tempo não para de chegar,
tem dias que ele chega para nos matar.
Tem vezes que quem escorre morto é ele.
Às vezes tudo isso é um grande desserviço.
Mantenha-se inteiro, te peço já gasto...
Mesmo no meio de tanto rumo despedaçado
uma hora corta-se o medo para ver sangrar
um novo caminho, um novo espaço.

22.06.2014

Pedaço de chão
engasga pé suado
joelho-solidão
cai ainda verde
arranha a terra
de suco amargo
vermelho-arranhão

quarta-feira, 18 de junho de 2014

21.04.2014

Tem palavra que não deixa escolha senão apagá-la.
Tem gente que eu nem escrevo.

domingo, 15 de junho de 2014

07.05.2014

Nesses dias de trégua e boas promessas
depois de tanto tempo com o peito tenso
respirar até causa cócegas.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

domingo, 8 de junho de 2014

03.05.2013

A cabeça de um
pendeu sobre o
peito do outro
O travesseiro de
carne bateu
suave na porta
do sono
enquanto se
cobria com o
braço de um
o corpo
desacordado
do outro

07 e 08.06.2014

Aborto palavras e mais palavras, tem dias não dou à luz nada, sequer meia dúzia de sílabas embaralhadas. Talham e matam-me ao vê-las disformes escorrerem para longe de qualquer sentido que pudessem ter. Perdem-se num breve e dolorido intervalo em que, ansioso, antecipo-me na busca pelo ponto final que lhes serviria de berço. Reticente permaneço. Mas não me estremeço, nem guardo trauma que me impeça de preservá-las desse mesmo jeito, mal nascidas ou mortas-vivas; para enfim num outro dia, sem atropelo, olhá-las mais de perto e voltar a enfeitá-las de vida.

domingo, 1 de junho de 2014

08.06.2013

Há de se estar inteiro dentro
do que se é possível fazer hoje,
não porque o hoje acaba, mas
justamente para que o hoje
permaneça.

01.06.2014

Arrastaria o dia inteiro
só para não chegar
onde me chamam
onde me querem
onde pedem por mim
Iria tão lento
que seria obrigado
a desistir de ir.