quarta-feira, 25 de junho de 2014

Versão 25.06./2014 de 17.12.2012

Ele então sentou-se na cama sem pressa, embora já passasse das 02h da madrugada e precisasse levantar às 07h. Sentou-se lentamente apoiando as mãos sobre o colchão com o cuidado de um bailarino sempre atento aos detalhes da sua sequência coreográfica. Respirou fundo um par de vezes acompanhando suavemente o trajeto do ar no seu corpo. Fosse apenas isso e logo estaria no sétimo sono. Mas seria difícil dormir daquele jeito, com o olhar tão inquieto contrastando com toda aquela languidez do resto do corpo. Era isso que queria acalmar antes de deitar, se não o fizesse certamente não dormiria. Fixou os olhos no guarda-roupa à sua frente, dando-lhes ordem de parar, mas feito crianças mal-criadas eles logo correram para o chão, depois para os sapatos, o tapete, a porta, subindo em seguida para o teto, a lâmpada, a teia, a muriçoca... Cobriu às pressas o rosto com as mãos na mesma intensidade de quem diz "calma", mas sem dizer. Não adiantou muito, os olhos ultrapassavam as frestas entre seus dedos e continuavam livres pelo quarto... Ele insistiu, mantendo as mãos sobre o rosto, fechando o quanto podia as pistas de luz por onde seus olhos fugiam. Sim, dormia com as luzes acesas. Sutilmente passou a se acariciar, levando os dedos pela testa, sobrancelhas, pálpebras, as palmas das mãos sobre as bochechas, depois pela barba... Os olhos, enfim, pareceram entender o recado. Algo naquele toque tranquilizou seu olhar. E fez algo mais. Da mesma maneira lenta como se sentou, seus olhos vagarosamente molharam-se e passaram a lançar lágrimas por entre seus dedos. Não havendo o que fazer, largou o rosto liberando a represa. Agora seus olhos miravam o nada enquanto lavavam sua barba. No tempo que despencava sobre seu colo, não a barba, mas as lágrimas, ele nem se deu conta da sua coluna se curvando e pendendo para o lado até tocar com o tronco o colchão, suas pernas seguiram o movimento e logo ele se encontrava encolhido na beirada da cama. As lágrimas ainda corriam, agora molhando o travesseiro, mas espaçadamente, cessando à medida que o corpo se acomodava por completo na cama. Um longo bocejo apareceu sem avisar e tratou de cerrar os olhos sorrateiramente com a pressão da boca se abrindo. Dormiu antes mesmo de sentir o caminho de lágrimas em seu rosto secar.

Nenhum comentário: