quarta-feira, 5 de novembro de 2014

05.11.2014

Foi atropelado pelo sol se pondo, mesmo sabendo que quem gira é a terra. Parou sem medo da luz bater-lhe nos olhos, toda espalhada pelo céu cheio de nuvens irregulares, mas arranjadas de tal forma que quem tem fé diz ser coisa feita por alguém com D maiúsculo. Uma luz gigante e laranja, apocalíptica. O sol encaixado justo no fim da rua que atravessava cansado a caminho de casa. Se fosse o fim de tudo, não reclamaria daquela hora nem da maneira que o tempo arrumou de acabar com as coisas. Os olhos não demoraram muito porque a luz era intensa e confundia a razão, passando então a admirar apenas as bordas, os cantos onde a luz não conseguia tocar direito, deixando contornos dourados possíveis de acesso visual. Mesmo sem conta no instagram ou facebook, não se furtou de erguer o celular e capturar aquele ensaio de fim de mundo. Poderia ser o fim de fato e caso sua intuição estivesse certa, achou justo que o evento fosse registrado. Mas também poderia ser apenas uma bela oportunidade de ser assaltado, com o celular à mostra, abobalhado feito turista deslumbrado diante do cartão postal de qualquer cidade cenográfica globalizada. Nem um nem outro. Tudo correu sem sobressaltos. Guardou o aparelho e seguiu caminho, deixando a luz para trás, no fim daquela rua a caminho de casa. Não sem antes pensar com carinho que se aquele momento fosse mesmo o fim de tudo, certamente seria um belo final feliz.


2 comentários:

Simone Lima disse...

Já vi sozinha e acompanhada diversas vezes o sol se por, e teu relato, me fez lembrar de uma vez, a mais perfeita de todas, há certos 5 anos atrás. Tive essa mesma sensação, de que se tudo acabasse ali, teria sido perfeito essa última imagem *-*
Obrigada por isso!!

beijoo'o

Gyzelle Góes disse...

Céus. Que lindo. Muito poético, muito sensível