quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

24.12.2014

Há um peixe, meu amor, não sei exatamente qual, um lá no Japão, talvez um baiacu, bagre, não sei ao certo, sei que é com B. Há um peixe que desenha mandalas no fundo do oceano com a própria cauda. Ele arrasta a cauda incansavelmente e de forma tão precisa que por fim deixa registrada na areia fina do fundo do oceano, lá onde só se pode ir com roupa apropriada e muito oxigênio ou talvez nem se possa ir, mas apenas mandar uma câmera, lá ele cria uma espécie de mandala, sim, arrastando a cauda na areia. Como alguém, um peixe, meu amor, consegue desenhar um círculo de sulcos no fundo do mar? Ele, sozinho, e talvez por isso mesmo, por sua solidão, desenha um círculo, uma mandala, um sol, algo que ele faz sem sequer ter noção da beleza, ou talvez tenha, mesmo na escuridão. E sabe porque ele faz isso, meu bem? Para atrair uma fêmea da sua espécie, de forma que consigam acasalar. Os sulcos, dizem, servem para protegê-los da correnteza. Uma fêmea de gosto refinado, distraída, uma hora passa por ali e fica, se encanta com o trabalho daquele artista. Há um peixe, meu amor, cavando nesse instante uma mandala no fundo do mar do Japão, um peixe venenoso e solitário, um peixe artista que não perde tempo fingindo ser um golfinho ou tubarão; ele é um peixe pequeno, venenoso e criativo, romântico e solitário, que numa certa idade, quando se incha de desejo, não muda de cor ou emite sons estranhos, ele desenha, ele se arrasta no chão do oceano como se tivesse T.O.C. até formar uma escultura capaz de mudar o sentido das correntezas, enganar as sereias e atrair uma fêmea que deseje atenção.

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