quarta-feira, 29 de abril de 2015

06.12.2014

Andarei lento pela cidade como se as esquinas não me ameaçassem. Seguirei devagar entre ruas e calçadas, becos e comércios. Não buscarei por nada, exceto por mais chão, deixando para trás a poeira que meus sapatos levantarem, com muito esforço, ao passar. Observarei de perto cada muro, placa, árvore, bicho, gente, prestando atenção em cada mudança de respiração, cada irregularidade do piso, cada devolução de olhar. Com sorte, me perco.

15.04.2015

Reto
Duro
Cego
Ultrapasso
seu peito
seu braço
seu laço
Despedaço
a sorte
de te amar

domingo, 26 de abril de 2015

Versão 26.04.2015 de 05.01.2013

E com a língua
no seu ouvido
fala de saliva
e gemidos.
Enquanto ensaia,
em vão, uma fuga
daqueles braços;
sufoca suado,
soterrado
pelo peito
ofegante
de quem
não tem pressa
em ser saciado.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

10.02.2015

Represa reteve uma dor que veio como uma onda, não das grandes, apenas o prelúdio de algo maior. Tem uma nova era sendo anunciada pelo movimento das placas tectônicas do meu juízo (ou falta dele). Há um novo tempo, talvez nem tão novo, mas outro apenas. O chão dentro de mim se racha e se pareço imóvel é porque estou desesperadamente tentando me manter de pé diante de tantos tremores. Quando falei contigo senti amor daqueles que sofre, daqueles dos filmes tristes, senti amor que só dá pra saber quando se afasta, mas quando se afasta a dor é tamanha que os olhos se fecham. Engasguei mas fingi fluidez. A onda não transbordou, por hora.

domingo, 19 de abril de 2015

19.04.2015

Nenhum ventilador dissipa o calor desse quarto, não importa se um ou três ou quantos couberem nas entradas das extensões espalhadas pelo chão. A cama sobre paletes não recebe brisa de nenhuma das duas janelas escancaradas por onde entram apenas poeira e silêncio. Os quadros parecem escorregarem pelas paredes à la Dalí. E os dois corpos, mesmo parados, economizando energia, suam feito esponjas ensopadas, sucessivamente espremidas sem nunca secarem. Mas quando o colchão verte-se em líquido grosso e salgado; amolecidos e insones, os corpos encontram-se suavemente até que acabam por nadarem nos braços molhados um do outro, queimando de tesão o amor de mais uma tarde enfadonha de domingo.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

04.02.2015

De novo essa tensão, essa pausa, essa constatação de que não há o que dizer. Os dedos, inertes, aguardando algum comando, alguma ideia que tome o corpo e os conduza agilmente entre as letras do teclado. Mas nada os move e se algo nesse momento é escrito é puro vazio, nada que de fato reflita ideias pulsantes e inquietas; apenas despiste, desvio. Talvez, na melhor das hipóteses, nesse dia tão ausente delas, um ensaio, um esquente, um engate para algo que necessite assim de um gradiente textual, um degradê de coisas ditas que apresente numa ponta as mais complexas e profundas e na outra, todas aquelas esquecíveis e dispensáveis. Tem dias, como esse, que cerco-me da certeza de que nunca avancei, realmente, para além dessas últimas.

15.03 e 15.04.2015

Acidentalmente, derrubei a Via Láctea bem nos meus pés. Foram farelos de planetas e cometas espalhados pelo chão do universo dessa casa sempre cosmicamente empoeirada. Tudo expandindo-se de forma tão veloz que, não duvido, algo certamente escapou de entrar no buraco negro do lixeiro... A vida não demorará a surgir por aqui!

quarta-feira, 8 de abril de 2015

08.04.2015

Escondo palavras dos seus tentáculos. Não é por mal ou por desconfiança. Um dia quem sabe eles sentirão isso aqui. Por hora, distraio-te com meus olhos e meus pés e minha boca e meu peito e meu corpo inteiro. É quase a mesma coisa, é tudo do mesmo lugar. E, principalmente, é tudo verdade, é tudo amor. Sua mutação não está comprometida pela ignorância do meu esconderijo. Quando estou nele não é mais do que quando estou contigo. É outra coisa, apenas diferente, dispensa comparação porque não se sustenta por concorrência. Seus textos sim, são mais interessantes do que aquilo que não te dou para ler.

16.02.2015

De frente ao mar
para crescer de ideias
vi as ondas arearem
a praia em torno
dos meus pés
Devagar me tornei
planta regada
com água salgada

domingo, 5 de abril de 2015

05.04.2015

Natureza-morta com Às de Copas, Georges Braque (1914)


 Feito obra
de Braque
tentei mostrar
todas as faces
do que sinto
por você.
Deformei
meu amor
em geométricas
e bizarras
demonstrações
de afeto.
Daí...
você me expôs.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

01.04.2015

Se eu te digo,
é mentira.
Mas quando você fala,
você grita.
Assombra a calma
Arromba o peito
Afronta o respeito
que se desfaz
em equivocados sustenidos.