quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

30.12.2015

Da falta de garantia sobre o futuro, resolveu se dar de presente aquela parcela do imprevisível que oferecesse mais probabilidades de saudável criação. Daquele dia em diante priorizou os detalhes que favorecem a formação de laços, apostou mais em gestos firmes e leves, olhos nos olhos, abraços mais apertados. Desde então, o futuro amanhece mais doce a cada dia. Não que esteja imune à dor ou isento de desarmonia. O tempo apenas passou a ser visto como um semeador de possibilidades de vida, menos tirano e muito mais um aliado.

02.12.2015

É de ficção que você se alimenta. Não importa se verdade ou mentira, a sua medida não é o real. O seu parâmetro é o quântico. Espaço e tempo dos seus passos se distorcem, contorcem, engalfinham-se apenas para atender os caprichos dos seus volúveis desejos. Sua trama é uma gosma gelatinosa e sufocante tanto mais se tente sair dela. Você é personagem em contínua criação, narração autossuficiente e despreocupada com o destino daqueles com quem trava diálogos. Você não passa de "era uma vez..." já ida, fodida em seu enredo, clímax previsível, falível em seu estilo de história mal contada.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

31.12.2014

Sensação louca essa, e constante,
de que sempre gasto o tempo
com o que pode ficar para depois.
Como a sobremesa antes do almoço,
e quando olho para o prato,
já sem apetite algum,
mal trisco no arroz.

23.12.2015

Tenho cuspido tanto amargor nos últimos dias, expelido a tristeza e o pessimismo latentes em meu pensamento, não é para ver a casa escurecer e afundar numa atmosfera densa e insuportável. Tenho dito toda essa dor e agonia antes como quem tenta se livrar de um veneno despojado que corre à vontade na corrente sanguínea, dissolvendo a vida já tão amarga. É na tentativa de sorrir que grito essa raiva diariamente para ver se me esvazio desses nós que me incomodam o sono mesmo nas mais ortopédicas noites de sexo. É no desejo de ser feliz que seguro as paredes com as mãos espalmadas e os olhos fechados deixando que a incompreensão e toda tensão que ela acarreta escoe para a terra e lá se disperse. Tento enterrar os maus presságios, especialmente os infundados, tanto quanto as minhas unhas suportam o atrito com as pedras que encontram no caminho. Não é cemitério que quero construir ao meu redor, é jardim.

domingo, 20 de dezembro de 2015

30.11.2015

Uma correnteza incontrolável flui por baixo desse silêncio todo. Em breve, as margens de todo esse gesto comedido e educado serão arrastadas pela ira omitida e alimentada secretamente entre nós. Haverá gritos e ninguém que puder se salvará. Seremos tragados pelo faminto redemoinho de incompreensão e dor de não sabermos lidar uns com os outros. Se toda essa água não afogar o pouco amor que boia cansado de tanto lutar contra as ondas intermitentes e cada vez maiores, talvez reste uma ilha logo ali que nos acolha e sirva de base ainda que temporária para um recomeço difícil e quase fadado ao fracasso.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

06.12.2015

O par de sandálias que você deixou aqui caminha pela casa levando meus pés por todos os cômodos e assim incomoda os vizinhos toda madrugada, assombrando de saudade o piso azulejado de poeira e pelo do gato.

domingo, 13 de dezembro de 2015

07.12.2015

Desce lágrima maldita e desentope essa goela fechada de frustração e rancor.

13.12.2015

Definho em silêncio diante do que não consigo mudar em mim. É tanta tentativa frustrada, tanta promessa descumprida. A culpa já não dói, de tão ininterrupta. Os dias seguem ligeiros e carregam com eles a esperança verde musgo quase erva daninha. Não sei do dia de amanhã, até vislumbro. Sucumbo na diferença entre o desejo ofegante e o que se ergue diante de mim, fruto das desajeitadas mãos que possuo. Sei da minha falta total de controle e a uso como cúmplice da minha incapacidade de superar a tola tarefa de ser algo melhor, algo inteiro, algo digno de participar.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

06.12.2015

Sou de esperar, carrego no peito uma coisa de pensar que algo bom está sempre para acontecer. Não acontece, claro, mas desejo calado e quase realizo. Nisso da vontade tensionar em silêncio dentro do peito, ofego, transpiro, dilato as pupilas e pisco até cansar e dormir. No dia seguinte, quem sabe, desespero até alcançar.

Série "Aleatórias Inspirações" - 4/8*

Há uma coisa qualquer
em mim mexendo
Não é vento
é berro doido
é avexamento
por isso bato papo
estranho te arranho
até de manhã
tiro sarro de você
até você me apanhar
pra lá de Teerã


* Inspiração em: https://www.youtube.com/watch?v=iNUsnjV3FIc. 09.12.2015.

domingo, 6 de dezembro de 2015

06.12.2015

A luz amarela da luminária veste o quarto de pôr do sol em eterna suspensão, enquanto aqueles dois anoitecem no horizonte da cama entre os montes de livros e os estreitos cânions quentes e úmidos que separam seus corpos. Afetos mudarão a paisagem até amanhecer.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

24.09.2015

Esse é um lugar incerto, dizia a si mesmo, justamente porque repleto de cômodas certezas e estabilidades. Transitórias todas, ele bem sabia. Um equilíbrio precário e ele agindo como se o futuro fosse previsível e palpável. Se podia tocar algo do amanhã, não seria mais que areia escorregando entre os dedos, farelos de objetivos mal planejados. Esse lugar incerto não lhe assombrava, mas nem por isso deixava de entristecê-lo, vislumbrando os pedaços rachados de desejos constantemente adiados.

30.11.2015

Explodo da falta de certeza
em minha boca muda.
Mudo calado os estragos,
estilhaços e ruínas
na esperança de cavar espaço
onde possamos ver crescer
outra casa, outro teto
menos frágil.